Quem não erra nunca aprende
Há uma tendência estranha que leva a que se presuma que — apesar das crianças crescerem com menos regras do que deviam até à entrada no jardim de infância; serem muitíssimo mais sedentárias do que era suposto; terem um ritmo de trabalho acelerado, insano e pouco razoável; de estarem cansadas e de terem poucos recreios e pouco brincar; dias cheios de stress e, para além do que devia ser, estarem demasiado “agarradas” a écrans e videojogos — na escola, num contexto de uma aula e em quaisquer disciplinas, elas devam estar quietas, caladas e atentas. E — mais — que devam ter sempre (ou quase sempre) bons resultados.
Quietas, caladas e atentas está, de facto, ao acesso de todas as crianças. Mas, sobretudo, quando elas se sentem em períodos de grande equilíbrio, estão descansadas e descontraídas. E têm ao seu dispor temas apetitosos que lhes agucem a atenção e professores especialíssimos que as arrebatam e as façam “voar”. Nada que não aconteça com muitas crianças, nalguns momentos. Mas nunca como se quietas, caladas e atentas fosse de esperar de forma mais ou menos constante, considerando todas as crianças duma escola. Independentemente dos sobressaltos e das limitações que tenham em casa. Da forma como chegam à escola. Das turmas em que são inseridas. Da duração de cada aula. Das metodologias que sejam utilizadas. Das exigências de resultados que têm sobre elas. Ou dos professores que são colocados ao seu dispor. Como se fossem relógios suíços que funcionam de forma irrepreensível, mesmo “debaixo de água”. De acordo com aquilo que se espera delas. E sem condicionamentos que as comprometam. E, pior, que não tenham episódios ansiosos. Momentos de abatimento e de tristeza. Inseguranças. Medos e “bloqueios”. Faltas de atenção. Ou nervoso miudinho.
As crianças são capazes de aprender tudo! Mas não aprendem sempre. Sobretudo quando queremos muito que elas aprendam à nossa maneira. Antes, ainda, de termos aprendido de que forma são elas capazes de aprender connosco.
Aquilo que se espera das crianças na escola é, tantas vezes, tão absurdo que surpreende, até, que elas teimem em aprender. Que gostem da escola. E amem os professores. Aliás, não fossem eles, e o clima para o qual a escola vem a escorregar – semelhante a uma unidade industrial de produtos normalizados – teria consequências mais graves, ainda.
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Por tudo isto, torna-se absurdo que haja, entre os profissionais de saúde dedicados às crianças, uma tendência que se vai instalando que afirme — sejam quais forem os ambientes de onde cheguem, as........
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