Mentir é estar aquém. A verdade é ver mais longe
Num mundo onde se mente de forma cada mais descarada e mais frequente, a mentira vai deixando, aos poucos, de existir. Fazer da mentira uma vulgaridade serve para que verdade e mentira se confundam. E para que, devagarinho, cada verdade se vá transformando num mal-entendido. A ponto de só ela destoar das “verdades convenientes” a que a mentira recorre para levar a supor que quem fala verdade está a mentir.
Como se nada disto, por si só, já não fosse preocupante, passaram a banalizar-se expressões como “narrativa” e “percepção”. Que dão a entender que os pontos de vista sobre uma determinada realidade são equiparáveis a uma história que se conta. Ou, quando muito, àquilo que os nossos sentidos registam e associam. Como se tudo o que vemos se tornasse falsificável. E a verdade ficasse tão envolvida por atribuições de subjectividade que aquilo que pensamos corresse o risco de nunca ser de confiança. Tornando-se, muito facilmente, objecto de reparos ou de censura. Como se as nossas verdades pudessem ser mentira. E as mentiras que se repetem se tornassem verdade.
Um mundo onde verdade e mentira são, deliberamente, confundidas é um mundo onde o contraditório perde, aos poucos, a sua importância. Fazendo, potencialmente, de cada verdade uma confusão. E daquilo que desmascare uma mentira um delito de opinião. Trazendo consigo o........
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