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Para que serve um Partido?

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02.04.2026

1 Talvez daqui a quinhentos anos, se já não houver escritores para acusar de racismo nas teses de doutoramento, ou se tivermos finalmente cumprido o Quinto Império e tornado Portugal objecto de interesse universal, alguém queira estudar os partidos portugueses. Nesse caso, o mais provável é que todas as divisões que nos ocupam hoje sejam para o desgraçado estudioso completamente incompreensíveis. Tão incompreensíveis como nos parecem hoje as diferenças entre Guelfos e Gibelinos, Históricos e Regeneradores, e tão arbitrária como a divisão política que, nas Viagens de Gulliver, leva à guerra entre Lilliputianos e Blefuscudianos, em que uns abriam o ovo por cima, e outros por baixo.

Os partidos sempre foram isso: expressões de afinidades, ares de família, amizades antigas e comunhão de interesses, que podem variar com o tempo e se adaptam à realidade. Às vezes, ganham um nome, e às vezes esse nome, herdado de uma questão específica, arrasta-se, até já ninguém saber bem porque é que chama Tories aos Tories e burros aos Democratas.

Houve um dia, contudo, em que a Europa acordou e quis fazer dos partidos, não só entidades permanentes, estanques e definidas (nada pode escapar à voragem burocrática da contemporaneidade), como as pedras de toque de todo o sistema político.

As pessoas juntam-se e zangam-se e têm problemas diferentes para resolver; as ideias, por outro lado, são permanentes, e a Europa do iluminismo, das grandes abstracções e incapaz de tolerar uma coisa nascida de um processo histórico e não de uma ideia abstracta, quis definir os partidos a partir das ideias. O resultado é conhecido: grupinhos acantonados nos cantos dos Parlamentos, com uma chave universal para todos os assuntos – a solução é privatizar, a solução é nacionalizar, criando o absurdo de Partidos que têm as soluções antes de terem os problemas – e incapazes do mínimo entendimento uns com os outros. A história, como acontece tantas vezes quando os teóricos têm poder para estragar alguma coisa, foi consertando a embrulhada da maneira possível. Foi assim que, em quase todos os países,........

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