menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A Europa e a Ucrânia, face a face

9 0
monday

Com a guerra na Ucrânia a caminho do terceiro ano, a questão do apoio ocidental tornou-se crucial para Kiev. Até agora, os Estados Unidos têm sido, de longe, o maior pilar desse apoio – militar, financeiro e humanitário, com 50% do auxílio militar, 45% do apoio financeiro e 30% da ajuda humanitária.

A perspetiva de um recuo de Washington por parte a atual administração coloca a Europa perante um dilema: conseguiria a União Europeia (UE) substituir os EUA no sustento à Ucrânia? Um relatório recente do Instituto Kiel para a Economia Mundial, de março de 2025, quantifica este desafio e os números não são animadores (os dados seguintes, exceto se assinalado, são desse estudo).

Atualmente, somando as contribuições bilaterais de todos os governos europeus e das instituições comunitárias, a ajuda europeia equivale a apenas ~0,1% do PIB anual europeu – um esforço orçamental relativamente modesto. Para cobrir integralmente a saída dos EUA e manter o apoio total à Ucrânia ao nível atual, os europeus teriam de duplicar esse esforço para cerca de 0,21% do PIB, o que corresponde aproximadamente a €82 mil milhões por ano. Por outras palavras, seria necessário que a Europa passasse a gastar, coletivamente, o dobro do que gasta hoje para sustentar a Ucrânia. Convém notar que 0,21% do PIB é menos de metade do que já apoiam alguns países: a Dinamarca e os bálticos já canalizam mais de 0,4% dos seus PIBs para a Ucrânia, e mesmo a Polónia, Noruega, Suécia, Finlândia e Países Baixos atingem ou superam a fasquia de 0,21%. O verdadeiro problema reside nos “grandes” da Europa Ocidental, cujos contributos ficam muito aquém, tanto em percentagem do PIB, como em valores absolutos.

A disparidade entre os pequenos países do norte/leste europeu e as principais economias da UE é flagrante. Países como a Letónia já destinaram, em média, 0,5% do PIB anual em auxílio à Ucrânia, e a Suécia e Finlândia cerca de 0,3%, com a Noruega, Países Baixos e a Polónia ligeiramente acima de 0,21%. Em contraste, as grandes economias europeias mobilizaram percentagens bem menores: o Reino Unido gastou em média ~0,16% do PIB e a Alemanha ~0,13%, valores abaixo do exemplo escandinavo, mas ainda muito superiores aos da França (~0,05%) Itália (~0,04%) e Espanha (~0,03%). Estas diferenças revelam falta de proporcionalidade no esforço: são precisamente os países com maior dimensão, maior PIB e maior responsabilidade geopolítica........

© Observador