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O exemplo de Bangkok para as águas mineiras

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27.02.2026

Minas Gerais atravessa uma das temporadas de chuva mais letais dos últimos anos. Juiz de Fora registrou 584 mm apenas em fevereiro, o maior volume já medido para o mês, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia. Em três dias, os acumulados superaram 229 mm, 240% acima da média histórica. Em Ubá, 124 mm caíram em seis horas. O Rio Paraibuna transbordou. Encostas cederam. Até o fechamento deste artigo, às 14h de ontem (26/2), Minas Gerais somava 54 mortes no período chuvoso. De acordo com levantamento do Corpo de Bombeiros e Defesa Civil, havia 48 mortes em Juiz de Fora, onde 12 pessoas continuavam desaparecidas. As outras seis mortes foram confirmadas em Ubá, onde a corporação procurava outros dois desaparecidos.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais apontou drenagem urbana crítica, risco elevado de deslizamentos e solo saturado. O fenômeno foi classificado como “supercélula”, sistema convectivo de alta intensidade e rápida formação. A chuva foi extrema. A estrutura urbana revelou fragilidades.

Em momentos assim, antes de qualquer crítica, é preciso reconhecer algo que é da essência do povo de Minas Gerais: solidariedade. Foi assim quando o Rio Grande do Sul enfrentou enchentes históricas. Mineiros mobilizaram doações, voluntários e caminhões. Não faltamos ao Brasil. Não faltaremos ao nosso próprio povo.

Foi com esse espírito que abrimos a sede estadual do Movimento Democrático Brasileiro, na rua Rodrigues Caldas, 456, em Belo Horizonte, para receber doações destinadas a Juiz de Fora e Ubá. Água sem gás, alimentos não perecíveis, itens de higiene pessoal, roupas de cama e travesseiros. De segunda a sexta, das 8h às 17h. Não estou no governo. Não exerço cargo público. Posso agir como qualquer cidadão. Fica o convite ao Brasil: Minas Gerais sempre ajudou. Agora Minas Gerais precisa de ajuda.

Solidariedade é imediata. Planejamento é permanente. Os dados mostram que as despesas do governo de Minas Gerais com infraestrutura de combate às chuvas caíram de cerca de R$ 135 milhões em 2023 para aproximadamente R$ 6 milhões em 2025, redução de 96%, segundo o Portal da Transparência divulgado por “O Globo”. Em 2024, os pagamentos já haviam recuado para R$ 41 milhões. Após o desastre, anunciaram-se R$ 38 milhões para Juiz de Fora e R$ 8 milhões para Ubá. Emergência é necessária. Prevenção é estruturante.

Minas Gerais ainda responde à água com canalização, concreto e retificação. A lógica predominante é acelerar o escoamento, elevando o pico de cheia e transferindo risco. Fundos de vale ocupados, impermeabilização extensa e moradias em encostas ampliam exposição.

Existe alternativa técnica. O Benjakitti Forest Park, em Bangkok, inaugurado em 2022, ocupa cerca de 720 mil metros quadrados no terreno de uma antiga fábrica de tabaco. O projeto resulta da parceria entre o escritório tailandês Arsomsilp e o escritório chinês Turenscape, fundado pelo arquiteto paisagista Kongjian Yu, formulador do conceito de cidades-esponja. Não é paisagismo ornamental. É infraestrutura urbana.

Lagos interligados, relevo modelado e wetlands artificiais permitem reter até 128 mil metros cúbicos (m3) de água durante chuvas intensas. O sistema filtra aproximadamente 1.600 m3 por dia por meio de vegetação aquática e devolve água gradualmente em períodos secos. Bangkok abandonou o escoamento rápido e adotou retenção inteligente: absorver, armazenar, infiltrar e liberar.

A Zona da Mata de Minas Gerais possui morros íngremes, solos suscetíveis à erosão e vales estreitos. Exige planejamento por bacia hidrográfica. Áreas alagáveis controladas, bacias de retenção distribuídas, parques lineares em fundos de vale, recuperação de matas ciliares e restrição firme à ocupação de áreas de alto risco. Integração entre defesa civil, planejamento urbano e política habitacional.

Belo Horizonte já demonstrou que isso é possível com o Drenurbs e com o Parque Nossa Senhora da Piedade, criado em 2008 no Aarão Reis. Soluções baseadas na paisagem reduzem risco e qualificam território. A diferença está na escala e na continuidade.

Eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes. A reconstrução custa mais do que a prevenção. A pergunta estratégica é clara: Minas Gerais continuará reagindo ou passará a planejar? A água sempre encontrará caminho. Cabe ao poder público desenhá-lo antes da próxima tempestade.

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