Santarém, a jóia suspensa no tempo
Tenho por hábito reservar um dia por ano para ser turista nas cidades onde vivo: Santarém e Lisboa. Faço-o amiúde com disciplina quase ritual: escolho uma delas e visito-as como quem chega pela primeira vez e entrego-me ao acaso. Caminho sem plano nem roteiro, subo e desço ruas e travessas, perco-me deliberadamente. Procuro o imprevisto. E, por vezes, engano-me a mim próprio, regressando a lugares que conheço desde a infância ou dos tempos de estudante, como quem abre gavetas antigas e encontra memórias com meio século.
Desta vez, saiu na rifa Santarém. Cheguei ainda com o ritmo no corpo de uma semana a viajar pelo Norte e Centro do país, onde fui, de facto, visitante. Trazia o ritmo e o olhar atento que tenta absorver tudo: o que se vê e o que escapa. Porque cada pedra guarda uma narrativa, cada rosto transporta um percurso e cada paisagem resulta de forças que a moldaram: rios, serras, estradas, fábricas, ausências.
E, no entanto, ao chegar a Santarém; cidade que julgava conhecer bem; surpreendi-me. Desta vez, emocionei-me. E entristeci. Santarém merece mais. É uma joia suspensa no tempo, esquecida na sua própria grandeza, como se ocupasse um lugar indeciso entre o que foi e o que ainda não conseguiu ser.
Ao longo de milénios; desde que há memória escrita; quer em........
