A mulher imaginada
Soube que uma mulher, antes de me conhecer, imaginava que eu fosse riponga. Depois me viu e, segundo me contaram, surpreendeu-se com a minha elegância.
Demorei algum tempo pensando na distância entre uma palavra e outra, porque a primeira parecia ter chegado como suspeita, enquanto a segunda assumia a forma discreta de uma absolvição.
Não me incomodou ter sido imaginada riponga. Nunca compreendi por que isso deveria me diminuir. Talvez ela pensasse em roupas largas, pulseiras, plantas, incensos, algum desapego às convenções ou uma relação menos protocolar com a vida. Havia até certa liberdade naquela personagem inventada, embora a palavra, pelo que entendi, não tivesse sido pronunciada como elogio.
O que me intrigou foi a surpresa diante da minha elegância, como se o vestido, o sapato, a maneira de entrar numa sala ou de sustentar uma conversa tivessem corrigido alguma coisa em mim. A mulher que ela imaginara não parecia apenas vestir-se de outro modo; parecia ter cometido um erro que a mulher encontrada, felizmente, viera reparar.
Não conheço quem fez o comentário e seria injusto atribuir-lhe intenções que talvez não tivesse. Pode ter sido uma observação casual, dessas que desaparecem rapidamente da memória de quem as pronuncia, embora permaneçam, por algum motivo, em........
