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Manoel Valente : A gentileza em não endurecer

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18.06.2026

Existir é atravessar sem endurecer. A vida humana não consiste apenas em alcançar estabilidade ou completude, mas em aprender a habitar, com coragem e gentileza, os intervalos da existência: o movimento, o silêncio, a incompletude e a transformação, sem interromper aquilo que ainda tenta nascer em nós. Somos feitos de continuidades.

Talvez endurecer seja uma forma de defesa que, com o tempo, esqueceu de voltar a ser provisória. A gentileza, nesse sentido, é uma resistência à petrificação.

Ninguém amanhece rígido. Há pequenas sedimentações: uma decepção não elaborada, uma perda que nunca encontrou linguagem suficiente, um excesso de responsabilidade que se transforma em identidade. Aos poucos, o gesto se contrai, o olhar perde amplitude. A vida deixa de ser atravessada e passa a ser administrada.

Às vezes, confundimos profundidade com peso. Como se pensar exigisse gravidade permanente. Como se a inteligência precisasse abandonar o riso para merecer respeito. Há quem trate a própria seriedade como prova de maturidade, sem perceber que algumas formas de rigidez não passam de medo sofisticado. Talvez a densidade verdadeira não esteja no peso, mas na elasticidade.

Árvores muito rígidas quebram com o vento. As antigas aprenderam outra coisa: dobram-se. Não por fraqueza, mas para permanecer. Há sabedoria em não resistir a tudo, em compreender que certos movimentos não pedem enfrentamento, pedem flexibilidade. Sobrevive, muitas vezes, não o mais forte, mas o que ainda consegue mover-se sem perder a raiz.

O endurecimento não nasce apenas do sofrimento. Às vezes, brota do excesso de certeza: da necessidade de concluir e explicar depressa, de definir tudo........

© O Dia