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Do diáfano do imaginário à aridez da realidade

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05.10.2026

Numa conversa recente, motivada pelos exames e o futuro da educação concelhia, veio ao de cima o actual desencanto da juventude, que, após o fim do secundário, ou entra numa universidade, ou sem posses para as mesmas, sedeadas nas principais cidades do país, opta pelo ensino superior tecnológico, diversificado no Médio Tejo, em Abrantes, Tomar ou Santarém. Os problemas são os que sempre foram: as classes trabalhadoras fazem tudo para que os seus filhos tenham um futuro melhor do que o seu. Só que no mundo neoliberal em que vivemos, quem manda é doutro estatuto económico-social, não toma, conscientemente, medidas para a séria democratização do ensino, mingua os apoios a quem viva fora das zonas onde se localizam esses centros universitários. O ensino superior privado está, segundo a sua lógica mercantilista, vedado a quem viva do seu vencimento proletário, ou mesmo pequeno-burguês. O púbico não é tão acessível como seria exigível. e manifestamente carente para quem, pela Constituição, tem o direito de frequência, mas, na prática, não obtém, em subsídios, em habitação, em meios para aquisição dos meios de estudo, alimentação, transportes, o suficiente para cumprir o seu sonho contemporâneo: a licenciatura, o mestrado, o doutoramento.

Acrescente-se ainda a profunda desigualdade criada para os cursos de sucesso futuro; medicina, engenharia diversas, engenharia aeroespacial, computorização, mesmo direito. Para aí entram os alunos das escolas privadas – seria bom saber qual a profissão e cargos dos educadores, o seu peso económico, social e político, na sociedade contemporânea, e depois falaríamos.

Daí que os jovens do meu concelho, no centro do país, sintam que, após o esforço que famílias e eles concretizam as para a conclusão da sua passagem pela Universidade, não tenham qualquer apetência para o regresso à sua terra de origem. Empregos, só nos centros comerciais, com os vencimentos que se sabe e as condições que se conhecem. Na administração pública, só por concursos, mas onde a preferência dos tarefeiros por conveniência de serviço, entrados pela cunha do amigo do partido do poder, supera inúmeras vezes a paridade na listagem. No comércio, indústria, agricultura, serviços, pouco há e o que há não dá para pagar as rendas de casa que o governo considera moderadas, de 2.300 euros, o que a maioria do povo português não ganha. Resta-lhes a casa dos pais, sem autonomia para a sua juventude, muito menos a possibilidade dum companheiro(a) e filhos, porque o amor e uma cabana só existiu nos romances e na publicidade promíscua e narcotizantes dos canais televisivos onde tudo é fácil de atingir: casa, emprego, empréstimo bancário, carro, férias em hotéis de luxo, viagens. Ou a emigração, Europa e mundo.

Sem políticas de desenvolvimento económico e social, assentes na educação, no desenvolvimento tecnológico, na oferta de habitação acessível, na melhoria das condições de vida, o concelho ir-se-á transformando num reservatório de idosos, com problemas cada vez mais agravados de saúde, mas sem resposta para os mesmos, já que os serviços públicos minguam ante o crescimento dos privados, que, como os centros comerciais, são as duas forças vigorosas de instalação concelhia.

Por exemplo, 52 anos depois do 25 de Abril, nunca se instalou uma creche ou um lar público na, hoje, cidade, de Torres Novas. Não houve capacidade? Ou vontade?

Também não há habitação disponível? Permita-se-me a pergunta: quantas casas devolutas, entaipadas, existem no centro dito histórico, de Torres........

© Jornal Torrejano