O segredo que a NATO guardou durante nove meses
Em maio de 2025, na Estónia, dez operadores ucranianos de drones demonstraram em exercícios aquilo que agora chega ao público através do “Wall Street Journal”: em menos de um dia, conseguiram neutralizar o equivalente a dois batalhões da NATO. Nove meses de silêncio protegeram a segurança operacional, mas adiaram uma discussão que já não é teórica.
No exercício Hedgehog 2025, mais de 16 mil militares de doze países treinaram na Estónia com especialistas ucranianos em sistemas não tripulados. Um grupo de combate de vários milhares de tropas, incluindo uma brigada britânica e uma divisão estónia, avançou em ataque mecanizado. Do outro lado, cerca de dez ucranianos com drones e acesso ao seu sistema de gestão de campo de batalha. Em meio dia, destruíram dezassete veículos blindados e lançaram dezenas de ataques adicionais sem que uma única equipa de drones fosse neutralizada.
Os relatos dos responsáveis estónios dispensam dramatização. Aivar Gagniotti, coordenador dos sistemas de aeronaves não tripuladas da Liga de Defesa Estónia, classificou os resultados como «terríveis» para a NATO; na prática, as forças em causa deixavam de ter capacidade de combate após esse nível de perdas. Sten Reimann, antigo chefe do Centro de Inteligência Militar da Estónia, falou em choque entre o comando e as tropas no terreno, enquanto um comandante resumiu: «estamos acabados».
A razão não é apenas tecnológica. As forças da aliança operaram como se o campo de batalha continuasse opaco: deslocações a descoberto, tendas e veículos estacionados sem preocupação séria de ocultação, cadeias de decisão longas. Os ucranianos trouxeram o Delta, uma plataforma que integra inteligência em tempo real, análise assistida por inteligência artificial, identificação de alvos e coordenação de fogos. O ciclo localizar-decidir-engajar que na NATO se mede em horas, no sistema ucraniano mede-se em minutos.
Reimann foi direto: as velhas táticas de manobra, com grandes colunas a avançar em pleno dia, deixaram de ser praticáveis. Num cenário adverso, uma brigada pode perder, em poucas horas, a maior parte do seu equipamento de combate. Isto equivale a declarar obsoleta uma parte significativa da doutrina terrestre ocidental.
Dois meses depois, em julho de 2025, Robert ‘Magyar’ Brovdi, comandante das Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, levou o caso à conferência LANDEURO em Wiesbaden. Recordou aos generais da NATO que nenhum carro de combate resiste a um drone de quatrocentos dólares, que forças de drones representando dois por cento do efetivo podem causar um terço das baixas inimigas e que quatro das suas equipas seriam suficientes para devastar uma base da aliança em quinze minutos, a dez quilómetros de distância. Não era retórica: era a tradução, em linguagem operacional, dos dados observados no Hedgehog.
A assimetria não está apenas na táctica, está na escala. Oficiais ucranianos envolvidos no planeamento e nas operações estimam que, em cenário de guerra, só a Estónia precisaria de cerca de duzentos mil drones por mês. A Ucrânia passou de aproximadamente 2,2 milhões de drones produzidos em 2024 para cerca de 4,5 milhões em 2025, enquanto a NATO continua a treinar com centenas. A diferença deixou de ser um desfasamento de doutrina: é um abismo industrial.
O general David Petraeus, antigo comandante das forças dos EUA e da NATO no Afeganistão e ex-diretor da CIA, descreve bem o problema: uma lição só está verdadeiramente aprendida quando gera novos conceitos, doutrina revista, estruturas reorganizadas, treino ajustado e novos requisitos materiais que alimentam a aquisição. Nove meses depois do Hedgehog, já ninguém na NATO ignora o risco; a questão é se a velocidade de adaptação acompanha a velocidade com que a guerra mudou.
O tenente-coronel Arbo Probal, chefe da secção de sistemas não tripulados da Liga de Defesa Estónia, explicou que o objetivo do exercício era criar fricção, stress e sobrecarga cognitiva para testar a capacidade de adaptação sob fogo. O teste foi positivo. O incómodo é outro: adaptar a quê, em concreto? A drones vistos como ameaça pontual ou a um ambiente de transparência quase total, em que a disciplina de movimento, a gestão de assinaturas e a integração digital decidem quem sobrevive?
Durante décadas, a NATO ensinou a Ucrânia. Hoje, é a experiência ucraniana, corporizada em comandantes como Brovdi, à frente das forças de drones, que oferece o modelo de referência para guerra em ambiente saturado por sistemas não tripulados. Brovdi avisou que não vê fim para a guerra, nem amanhã nem este ano; o que está em causa é uma corrida de adaptação assimétrica entre Kiev, Moscovo e uma aliança que ainda aprende sobretudo em exercício.
Um dos oficiais presentes em Wiesbaden era o general Eduardo Mendes Ferrão, Chefe do Estado-Maior do Exército português, que tem insistido na necessidade de uma modernização acelerada, estruturada e doutrinária da força terrestre. Sob a sua chefia, o Exército procura alinhar-se com os aliados, adaptar organização, treino e aquisição de capacidades às novas ameaças e reforçar a prontidão operacional. A questão é se esse esforço nacional, ainda em fase de consolidação, acompanha a velocidade a que a própria natureza da guerra está a mudar.
A divulgação tardia dos resultados do Hedgehog não altera o essencial: ficou demonstrado que pequenos núcleos de operadores, apoiados por sistemas de comando e controlo adequados, podem neutralizar forças convencionais muito superiores num intervalo de horas. A NATO sabe-o. Falta verificar se age em conformidade com essa evidência enquanto ainda o faz em cenário controlado. A alternativa é aprender a mesma lição com baixas reais, não com estatísticas de exercício.
