menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O jus ad bellum em 2026, evolução ou impunidade para Teerão?

18 0
06.03.2026

Há um conforto intelectual peculiar em invocar a Carta das Nações Unidas como se fosse o Evangelho: imutável, literal, aplicável com igual solenidade a todas as circunstâncias. Esse conforto tem um custo: torna o direito internacional cúmplice passivo de quem aprendeu a matar dentro das suas margens.

O caso iraniano obriga a uma escolha incómoda. Ou o jus ad bellum evolui para responder à realidade de 2026, ou transforma-se numa garantia de impunidade para regimes que dominaram a arte da agressão incremental, demasiado lenta para acionar o artigo 51.º e demasiado sistemática para ser ignorada.

Importa sublinhar, desde já, o que esta análise deliberadamente não invoca. Não recorre à constante e documentada violação do direito internacional pelo regime iraniano, das resoluções do Conselho de Segurança ignoradas sistematicamente às sanções contornadas com sofisticação crescente. Não invoca o registo de violações graves e sistemáticas de direitos humanos dentro do próprio Irão, que por si só colocaria Teerão fora de qualquer pretensão de legitimidade na ordem internacional. O argumento que se segue assenta exclusivamente na lógica do jus ad bellum e nos factos verificáveis da ameaça externa. Se esse argumento é suficiente, e é, o resto é contexto que o reforça, não fundamento de que depende.

Teerão não faz guerra. Faz guerras, no plural, simultâneas e passíveis de negação. A Força Quds da Guarda Revolucionária financia, arma e dirige operacionalmente o Hezbollah, o Hamas, os Houthis e as milícias iraquianas das Forças de Mobilização Popular com mais de mil milhões de dólares anuais, cadeias de abastecimento de mísseis de precisão e aeronaves não tripuladas Shahed, além de um comando e controlo documentado. Foram mais de dez mil foguetes contra o norte de Israel desde 2023. Mais de cem ataques Houthi no Mar Vermelho entre 2024 e 2025, paralisando quinze por cento do comércio global. Mais de duzentos ataques de drones contra bases norte-americanas no Iraque e na Síria. Em abril e outubro de 2024, Teerão dispensou os intermediários ao disparar trezentos mísseis balísticos diretamente contra Israel.

Ao mesmo tempo, os relatórios da Agência Internacional de Energia Atómica de 2024 e 2025........

© Jornal Económico