Pequena história do Porto a sangrar por fora
O sol acertava na janela do tribunal de São João Novo e, lá em baixo, entre os cais de Miragaia e da Ribeira, o rio Douro esticava-se de lama e de histórias. O Porto via passar as últimas carruagens do "comboio das tempestades", deslizando para a Foz, quando a juíza perguntou ao homem:
- O senhor quer dizer alguma coisa?
- Que não tentei matar ninguém.
O homem no banco dos réus tentava explicar a diferença fundamental entre homicídio na forma tentada e punição controlada de um amigo traidor. Há um ano, no Carnaval de 2025, o homem carregara, mais do que o revólver, a decisão de prosseguir a vida com o seu amor infeliz.
- Eu não fui ter com ele, ele é que estava lá no bairro, perto da casa da minha mãe.
- Mas porque é que o senhor levava uma pistola?
- Não sei explicar, não há explicação.
Mas explicou: um dia descobriu tudo, mensagens e fotos num telemóvel. Falou com a companheira, ela chorou e disse-lhe que era verdade. Eu tinha-os visto de manhã nos claustros do tribunal, junto à fonte com duas cabeças de serpente marinha, ou lá que bichos de pedra e musgo ali fazem de chafariz. Estava este homem, junto a ele uma morena baixinha, os olhos brilhantes de sentimentos secretos prestes a rebentar em público e, ao fundo, outro indivíduo de cabelo espinhado, pernas finas de gingão e um casaco axadrezado de vermelho extravagante. A vítima é aquele ali ao fundo, disse-me um polícia. Era tão evidente que o homem e a rapariga não olhavam para o outro que só se podiam conhecer bem demais.
- Eu descobri a traição na sexta-feira, disse o homem no banco dos réus. Ele é meu amigo desde a infância. Eu já no fim-de-semana lhe tinha perguntado: "Como é que é, não tens nada a dizer-me?" Na segunda-feira, voltei a perguntar-lhe e ele, finalmente, disse: "És corno, é o que é, e não há nada a fazer!" E foi aí que lhe dei um tiro. Mas foi na perna.
- Foram três tiros, corrigiu a juíza.
- A verdade é que se eu quisesse matá-lo, eu matava. Eu jogo paint-ball, eu acerto. Acertei logo à primeira.
As palavras, às vezes, deslizam e caem como ribanceiras saturadas de água. De súbito, o ex-amigo era tratado por "senhor", mas para o desqualificar.
- O senhor caiu, tropeçou e foi aí que lhe dei mais dois tiros.
Atenção, apontou sempre para as pernas. Depois disparou para o ar.
- A minha intenção era magoá-lo, só isso.
O ex-amigo primeiro negara, dissera que a mulher era uma mentirosa.
- Não descobri tudo de uma vez. E estava calmo até ele me chamar corno.
Um tiro na perna furou o músculo e saiu e, quando o outro ao fugir caiu, deu-lhe segundo tiro na perna. A vítima levou o último no rabo, sim, um tiro no rabo, assim se falou esta semana no Tribunal de São João Novo.
- Eu disse-lhe: "Como me fizeste sangrar por dentro, vou-te sangrar por fora". E ele virou-se assim e eu dei-lhe um tiro no rabo.
Depois disso, muita água passou por baixo (e por cima) das pontes e ele voltou a viver com a companheira.
A vítima entrou finalmente na sala. O galã galaró disse uma coisa importante e honesta: o outro apontou sempre para as pernas. Mas nunca lhe chamara corno, pois nem sequer conversaram.
- Aconteceu. Meti-me com a mulher do arguido e ele foi ter comigo.
- O senhor teve medo?
- Quem é que não tem medo? Não tenho de dar justificação a ninguém. Porque eu sei que errei.
A mulher morena entrou, informou que continuava a viver com o arguido. Confirmou o que aconteceu há um ano no seu comboio de tempestades sentimentais. Duas vizinhas velhas, que os conheciam no bairro desde miúdos, viram os dois a conversar e ouviram estrondos mas, como era Carnaval, pensaram que eram bombinhas de brincar.
*O autor escreve segundo a antiga ortografia
