A estátua da mortandade
Há uma luz ao fundo. Uma luz pequenina lá longe no mar que se aproxima mais e mais, crescendo em tamanho e brilho, até ferir a vista de quem a olha quando chega perto, incandescente. É outra vez ela: a tocha que a mulher de cobre que vigia Nova Iorque de cima empunha no alto orgulhosa; revestida a ouro e coberta por promessas de libertação e paz - não há que enganar. A estátua-mãe sai de pose e percorre milhares de quilómetros para alumiar caminhos, defendendo que só a luz que traz na mão pode dar a um lugar a clareza que ele pede nas ruas - acontece com regularidade, às vezes com aviso, outras de surpresa. Mas a luz que ilumina também queima, e quando a tocha cai ao chão, mesmo em cima de material inflamável (que azar!), não há promessa, nem acordo, nem candidato a Nobel da Paz que apague as labaredas de vez e varra as cinzas para algum sítio que não debaixo do tapete. Também acontece com regularidade.
E está a acontecer no Irão. Quando o fogo se apagar e começarem as limpezas e arrumações no país, as cinzas vão estar debaixo dos tapetes persas que não tiverem sido queimados.
No primeiro dia da nova guerra, um míssil destruiu uma escola primária feminina na cidade de Minab. Morreram 165 pessoas, a maioria meninas entre os sete e 12 anos, e mais de uma centena ficou ferida. Várias investigações jornalísticas e militares divulgadas ao longo da semana indicam que o míssil seria um Tomahawk norte-americano que falhou o alvo. As coordenadas usadas estariam desatualizadas, identificando erradamente o local da escola como parte de uma base militar nas proximidades. Descrito pela UNESCO como uma "grave violação" do direito internacional, o ataque, que Donald Trump começou por atribuir à suposta "falta de precisão" das forças iranianas, é o pior massacre da guerra entre EUA e Israel contra o Irão. E certamente não ajudará a trazer a prometida paz. Nem a uma região há muito em ebulição, nem às famílias enlutadas para sempre.
Enquanto isto, em frente ao Capitólio, em Washington, foi instalada nos últimos dias uma estátua inspirada numa das mais icónicas cenas da história do cinema. Donald Trump e Jeffrey Epstein (criminoso sexual com ligações às elites norte-americanas) surgem como Jack e Rose, no momento em que sobem à proa do Titanic de braços abertos, não deixando cair em esquecimento a relação entre o falecido magnata e o presidente, que era o tema quente nos EUA e no Mundo antes da ofensiva contra o Irão. Entre essa estátua e a da Liberdade, o melhor mesmo é escolher a terceira: a dos Oscars, da noite passada. Até porque, embora também loiro, Trump está longe de ser DiCaprio.
