menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O dinheiro devia falar

15 0
18.04.2026

A decisão de vedar o acesso público à identidade dos financiadores dos partidos é reveladora: escondido atrás da capa da proteção de dados, o sistema deu mais uma prova de que o escrutínio só é bom quando é para os outros. Até podemos aceitar que, ao ver revelado o seu nome e inclinação partidária, qualquer cidadão possa temer represálias, em particular num mundo em que o gatilho das redes sociais é demasiado escorregadio. Garantir formas de liberdade e proteção no âmbito da participação cívica é uma coisa, outra é instituir um regime de opacidade, em que cidadãos, e sobretudo Comunicação Social, vão conhecer apenas os montantes doados e não a identidade dos beneméritos.

Quem decide financiar um partido político fá-lo com um objetivo e sabe que, mesmo que indiretamente, está a intervir na vida pública. E, por isso, tem de estar preparado para um certo grau de exposição. Conhecer o rosto de quem alimenta as máquinas partidárias permite identificar dependências financeiras, trocas de favores ou eventuais conflitos de interesse. O escrutínio público é elementar. Caso contrário, teremos um sistema democrático manobrado na sombra por fantasmas que passam cheques. Foi a transparência que nos permitiu saber que as campanhas presidenciais de Cavaco Silva foram apoiadas pelo Grupo Espírito Santo, que a Mota-Engil fez donativos ao PS, que o empresário César do Paço recheou os cofres do Chega e que o maior cliente da Spinumviva, a empresa familiar de Luís Montenegro, era uma gasolineira cujo dono é financiador do PSD. Ao blindarem o acesso à informação, os partidos deram mais um passo no sentido do descrédito. O dinheiro não fala, mas neste caso devia. Depois não se queixem.


© Jornal de Notícias