A terceira idade
Portugal vem negligenciando um problema grave de falta de solidariedade social para com a população mais idosa e que urge enfrentar e resolver, enquanto Estado de cariz social. O drama insustentável das actuais condições de vida da maioria dos idosos impõe que o Estado assuma a responsabilidade de cuidar da qualidade de vida daqueles que, por carência económica ou por ausência de afectos familiares, vivem na solidão, no abandono, na indiferença das instituições públicas. Dita a CRP que Portugal é uma república, baseada na dignidade da pessoa humana e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária. Por isso "as pessoas idosas têm direito à segurança económica e a condições de habitação e convívio familiar e comunitário que respeitem a sua autonomia pessoal e evitem e superem o isolamento ou a marginalização social." A política da terceira idade engloba medidas de carácter económico, social e cultural, tendentes a proporcionar-lhes oportunidades de realização pessoal... adianta a Lei Fundamental. A realidade é assim? Bem oposta. Cerca de 50% da população activa aufere um vencimento inferior a mil euros. A habitação é um luxo. As rendas moderadas, de acordo com a decisão governamental podem atingir o montante de 2300 euros. Consabidamente, Portugal é um país envelhecido, a população com mais de 70 anos é de cerca de dois milhões e meio. As pensões por velhice, as pensões sociais de velhice, o complemento extraordinário de solidariedade e as reformas são, em média, entre os 300 euros e os 600 euros. Perante a paradoxal assimetria entre os rendimentos mensais auferidos e as despesas obrigatórias do agregado familiar, não é possível optar por manter em casa o parente mais velho, dependente de apoio físico ou psicológico permanente. Institucionalizados, são cerca de 2% a 3% da população com mais de 65 anos, de acordo com o INE. Dos restantes, cerca de meio milhão vive sozinho em casas sem condições mínimas de habitabilidade, de difícil acesso e no Interior do país, isolados sem esperança, sem alegria, sem segurança, dependentes das visitas regulares e humanitárias da GNR. A procura de lares ou residências para idosos excede em muito a oferta, não obstante os preços exorbitantes. Algumas instituições não preenchem os mínimos de conforto, afectividade e empatia dos cuidadores que, em grande número, não têm preparação específica nem cursos direcionados aos cuidados dos utentes. O país tem de enfrentar esta realidade e acentuar a prevenção. A solidão que se impõe não é a que se procura quando se é livre para escolher. Olhar vazio, mãos inertes, cabeça inclinada pelo desengano e tristeza à espera da partida. E sempre só. É uma mostra de muitos daqueles que vivem sozinhos ou sozinhos estão, quando institucionalizados. É urgente reverter este retrato, que não é um destino. Importa a implementação de um plano nacional estruturado, organizado e objectivado no bem-estar, na qualidade de vida, na alegria do convívio dos mais velhos.
*A autora escreve segundo a antiga ortografia
