Socialismo de champanhe
Muitas vezes o que vemos de longe ganha contornos românticos: um amor ausente, a cratera de um vulcão, um parente aventureiro que regressa ao convívio familiar de dois em dois anos para relatar os seus feitos em destinos exóticos. A distância propicia a projeção de ideais fantasiosos sobre realidades que, vistas de perto ou por quem as vive, em nada correspondem ao ideal construído. O mesmo pode acontecer com ideologias políticas, sobretudo se estas forem doutrinadas em meios socioculturais considerados de elite. É o que vem acontecendo em universidades de referência do mundo ocidental, como Cambridge em Inglaterra e Columbia nos Estados Unidos. O peso de uma instituição centenária de prestígio goza de uma aura de credibilidade que, para os mais ingénuos, pode ser considerada intocável, mas não podemos esquecer-nos que qualquer instituição é dirigida por pessoas e é a qualidade dessas pessoas que molda o core de uma instituição, e não o seu inverso.
O psicólogo nova-iorquino Leon Festinger, que ganhou fama mundial devido ao desenvolvimento da teoria da dissonância cognitiva, levou a cabo uma experiência com o seu colega James Calrsmith em 1959: um grupo de pessoas foram convidadas e executar uma tarefa entediante durante um tempo considerável e a relatar aos participantes seguintes que a tarefa tinha sido divertida. A alguns dos participantes ofereceram um dólar por mentir em relação ao que sentiram, a outros ofereceram vinte dólares. Em 1959, vinte dólares era um valor significativo. O que verificaram foi uma tensão psicológica maior entre os que receberam apenas um dólar por vivenciarem pensamentos em conflito, ao contrário do grupo que foi generosamente remunerado. Estes não sentiram pudor em afirmar que a tarefa não os afetou em nada. A dissonância cognitiva revela que o ser humano é capaz de racionalizar os seus comportamentos e de criar para si e para os outros uma narrativa que justifique determinadas atitudes ou convicções.
Exemplos deste tipo de comportamento estão à vista de todos entre os parentes de elementos estruturais do regime iraniano. A sobrinha e a sobrinha-neta do general Soleimani, respetivamente Hamideh Soleimani Afshar, de 47 anos, e a sua filha Sarinasadat Hosseiny, de 25, levavam uma vida de luxo nos Estados Unidos, ostentada nas redes sociais, exibindo tops com a barriga à mostra e shorts ousados, enquanto proclamavam as virtudes da República Islâmica até serem detidas pelas forças do ICE. Recordo que Soleimani, morto em 2020 num ataque aéreo por parte dos Estados Unidos em Bagdad, liderou desde 1998 a força Al Quds, uma unidade especial da Guarda Revolucionária focada na projeção do poder do regime e na sua influência externa, que inclui a criação e fortalecimento de milícias fora do Irão, mas ao serviço deste, como o Hezbollah no Líbano e os Houtis no Iémen. Um dos homens mais poderosos de um dos regimes mais opressivos da atualidade, que prende mulheres na rua por não cobrirem o cabelo e que apresenta números impressionantes de execuções, proporcionava à sua família uma vida de luxo num país democrático e livre.
Quando a Esquerda em geral sente pudor em criticar abertamente o terror perpetrado por tão cruel regime, é possível que tenha sido apanhada na curva de uma profunda contradição: defender os fracos e as vítimas, mas de forma seletiva. Ou seja, as crianças que sofrem em Gaza merecem revolta, mas nem uma palavra sobre os jovens à espera de uma sentença de morte nas prisões no Irão. O que tem a Esquerda a dizer sobre uma execução por dia no Irão, quase sempre sob a mesma acusação, moharebeh, que quer dizer ofensa a Deus? O regime quer defender a todo o custo um sistema corrupto com o pretexto de uma guerra religiosa, com o socialismo de champanhe a assistir de camarote.
