O melhor entre os malandros
Sempre que um escritor morre, o Mundo fica mais pobre. A notícia da partida de Mário Zambujal escassos dias depois de ter completado 90 anos apanhou-me de surpresa, porque é sempre um golpe no coração quando perdemos um herói particular, e o Mário estava entre os meus eleitos.
Entro na máquina do tempo até o ano de 1980. Estou doente há várias semanas. Sofro diariamente de uma febre que dispara até aos 39 graus e encharca todas as noites os lençóis. A cabeça rebenta de dores, o estômago não aguenta nada, já fiz análises várias vezes e nenhum médico parece seguro em relação ao diagnóstico. Talvez febre de Malta, arriscam. Dois invernos antes, já passara toda a primavera na cama por conta de uma mononucleose que me deixou exausta durante anos a fio.
Em criança, foram quase três meses confinada ao meu quarto por causa de uma febre reumática. Estou por isso habituada a viver no meu mundo de silêncio e de alguma solidão, os livros são a companhia que não teme o contágio nem sai do alcance da minha vista. E eis que o meu querido pai me traz "A crónica dos bons malandros". Devoro o livro frase a frase. Imagino as suas personagens como se estivessem à minha cabeceira. Apaixono-me por Renato, o Pacífico, graças à sua fleuma. Aprendo sobre o bas-fond lisboeta com Lina Despachada e Adelaide Magrinha, mulheres que a ignorância diz serem de vida fácil, uma batida e uma novata, solidárias na profissão e na amizade, e desconfio de Silvino assim que Mário relata que o seu primeiro roubo foi a chupeta do irmão gémeo. Cada capítulo apresenta um personagem, emoldurado com uma descrição prévia, simultaneamente divertida e encriptada, em jeito de lead jornalístico. Mário sempre foi um malabarista das palavras, brincalhão e certeiro, a sua prosa lembra um baile de uma sociedade recreativa.
Toda a quadrilha me fascina, mas fico ainda mais intrigada com o plano de roubar a Coleção Lalique que está na última sala do Museu Gulbenkian. Com 15 anos, já tinha visitado várias vezes o museu e a sala das joias era o meu lugar predileto. Ainda não sabia quem era Mário Zambujal, jornalista e mais tarde cronista e diretor da imprensa, autor deste delicioso portento que mudou a literatura em Portugal e me serviu de inspiração para o caminho da escrita. Devorei o livro numa tarde e votei a ele inúmeras vezes.
A febre passou e foi esquecida. Os anos seguintes trouxeram-me mais saúde, mas nunca esqueci a alegria que o primeiro romance de Mário me trouxe à alma, e ganhei o hábito de o oferecer a qualquer amigo ou familiar que ficasse doente. Duas décadas mais tarde, erámos colegas na mesma editora. O Mário continuou a publicar: "Histórias do fim da rua", "À noite logo se vê", "Primeiro as senhoras" e tantos outros. Gostava de escrever à mão, como se o laço entre os dedos amarelecidos pelo tabaco e o papel fosse um pacto de amor. E era. Fizemos muitas sessões de autógrafos juntos, eu pedia à editora que nos marcasse no mesmo horário para o ouvir contar histórias de uma Lisboa castiça que só quem andou na boa-vai-ela conheceu. O ofício da escrita aprendia-se na rua e nas redações, apenas os talentosos vingavam. As noites eram das coristas, dos jornalistas e dos artistas, de quem gostava de vadiagem e tinha ginga para aguentar copos e cigarros até de madrugada.
Certa tarde de sol na Feira do Livro, Mário pousa o olhar carnal numa jovem tatuada e diz: "fica sempre bem uma mulher ilustrada". Durante a apresentação de um dos meus livros, quando uma atriz passa por ele, comenta, de sorriso rasgado, "vai ali uma bela contracapa". O Mário era isto: alegria, bonomia, humor, leveza, subtileza e total simplicidade, qualidades tão raras num escritor. A sua graça vive eternizada na sua prosa única, para nossa sorte, editada e reeditada pelo Clube do Autor.
