A reserva que não se reserva
A reunião era na capital, pelas dez da manhã. Feitas as contas, pareceu-me que, desta vez, o comboio era a solução ideal. Saía às seis e chegava ao Oriente pelas nove e meia. Assumindo, claro, o habitual ato de fé ferroviária: não haver atrasos.
Para evitar levar o carro, pensei que um táxi resolveria o problema da deslocação até à estação. Fui ao Google e encontrei a central de reservas da cidade. Tudo certo!
"Boa tarde, queria reservar um táxi para amanhã, pelas cinco e meia da manhã, de casa até à estação." Um pedido simples, quase banal.
A resposta, porém, veio com um inesperado toque de aventura: "Obrigado pelo seu contacto. Pedia-lhe que ligasse amanhã de manhã, que é mais seguro." Respirei fundo. Dei cinco segundos a mim próprio. Voltei.
"Desculpe, mas não posso reservar de véspera?" "Se ligar hoje, o motorista pode esquecer-se e você fica pendurado e perde o comboio." Fiquei uns segundos a tentar perceber se aquilo era um aviso... ou uma confissão. "Então, mas vocês não garantem a reserva?" A resposta foi desarmante, no seu realismo cru: "Sabe, se ligar amanhã às quatro e meia deve arranjar." Nova inspiração e mais cinco segundos de latência. "E se não arranjar?" Do outro lado, um seco e honesto: "Não sei."
Fiz as minhas contas. Ponderei tempos e riscos, incluindo a possibilidade de o motorista não existir ou, existindo, esquecer-se de existir naquela madrugada. Conclusão: para me levantar às quatro e meia e fazer um telefonema de resultado aleatório, mais vale assumir desde logo o controlo do caos.
E assim lá me atirei a mais uma piscina de setecentos quilómetros, ida e volta, mais ou menos sete horas de volante, em nome da previsibilidade.
