Tem mesmo de ser (quase) tudo diferente na saúde?
Se há consenso que une a chamada tribo da saúde é, sem dúvida, o de considerar que é tudo, ou quase tudo, diferente nesse universo cada vez mais complexo e tentacular. E mais, esta diferença ou diversidade, que caracteriza a saúde face à generalidade das demais áreas em que coletivamente estamos envolvidos, apresenta-se sempre intensa e marcante. A regulação e regulamentação é mesmo muito mais complexa, infindável e, por vezes, com tiques kafkianos. Os modelos de gestão que têm vindo a ser adotados e implementados ao longo das última décadas aparentam procurar dar resposta a uma especificidade que, afinal, parece não existir. E os modelos de negócio, igualmente desenhados ou construídos também em cima de pressupostos que encontram justificação numa alegada singularidade, começam a dar sinais de dificuldade em responder, de forma eficaz e transparente, à evolução da envolvente, em particular das dinâmicas associadas às novas e emergentes tecnologias.
Reparem, por favor, que é sempre mais tarde, e com forte resistência, que a saúde absorve e integra no seu quotidiano dinâmicas que há muito, e de forma positiva, condicionam outras realidades. Estou a pensar, por exemplo, nos direitos do consumidor ou nas preocupações com a sustentabilidade. No primeiro, é evidente o paradoxo entre as proclamações de colocar o doente no centro e a forma como os sistemas estão, na sua maioria, efetivamente a funcionar. Quanto ao segundo, e se o elemento comparador e de referência for a generalidade das demais atividades, emerge a perceção, infelizmente não desmentível, de que o que se faz é, sobretudo, para cumprir calendário e fazer de conta.
E assim, a questão que aparentemente faz todo o sentido colocar, e que dá título a esta crónica é: tem mesmo de ser (quase) tudo diferente na saúde?
Arriscando ir contra a corrente, julgo que a resposta deve ser negativa: não, não tem, antes pelo contrário! E diria mais: estaremos no bom caminho quando não aceitarmos a justificação da especificidade para que sejam impostas na saúde regras e procedimentos muito diferentes dos que são aplicados noutros setores.
Acredito que o futuro passará por esta normalização com as vantagens daí decorrentes em termos de partilha de conhecimento e de ganhos de massa crítica. O tema da utilização secundária dos dados é um exemplo eloquente disto mesmo: por força dos fantasmas da especificidade, temos andado, desgraçadamente, a perder tempo e energia, tão necessários à construção de respostas aos desafios, quer de hoje, quer de amanhã.
