No meio
Vale a pena perder alguns minutos a ver (ou rever) os dois recentes embates do líder do Chega com Teresa Morais, vice-presidente da Assembleia que na ocasião substituía Aguiar-Branco. Não que a gritaria, a má educação e os ataques pessoais sejam uma novidade por parte da bancada liderada por André Ventura, mas a cada exemplo reforça-se a normalização de um modo de fazer política que desrespeita o Parlamento. Os incidentes demonstram, na forma, a mesma falta de sentido democrático de muitas das propostas do Chega. Num momento em que se ouvem apelos a compromissos entre partidos e a uma maior maturidade política, convém não sermos ingénuos a ponto de considerarmos que a lógica do consenso passa por tratar como igual aquilo que é na sua essência diferente.
Reforçando a estratégia seguida pelo primeiro-ministro para governar em minoria, o líder da bancada parlamentar afirmou que o PSD vai "continuar no meio" de PS e Chega. Entre um partido com o qual tem mais semelhanças do que diferenças e outro que subscreve propostas anticonstitucionais, o PSD insiste numa equidistância que os eleitores demonstraram rejeitar, quando foram chamados às urnas na segunda volta das eleições presidenciais.
No seu discurso de posse, o presidente da República assegurou que não permitirá que sejam pisadas linhas vermelhas e apontou o cuidado da democracia como "tarefa urgente" dos novos tempos. Assim sendo, seria eventualmente mais adequado ter prometido tratar todos os partidos com independência do que tratá-los por igual. A defesa da democracia exige resistência ao que a ameaça. O Chega não é um partido igual a qualquer outro.
