À boleia de Sobrinho Simões
Em 1926, a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto realizava a primeira autópsia a um cidadão africano. O momento era encarado com expectativa, já que a comunidade médica esperava extrair informações novas dos órgãos de um negro. Rapidamente a conclusão se tornou evidente: somos todos bastante mais iguais do que a superfície aparenta. É para curiosidades como esta que facilmente deriva uma conversa com o investigador Manuel Sobrinho Simões, que tem a sabedoria de conduzir cada detalhe sobre o seu trabalho para recantos densos da existência. Uma conversa sobre cancro passa rapidamente para os desafios menos visíveis das demências ou do envelhecimento em solidão. Escavar na raiz etimológica de patologia, o vocábulo grego "pathos", impulsiona uma reflexão sobre a falta de empatia numa sociedade que se foca mais no combate individual à doença do que na luta coletiva pela saúde.
O mérito da ciência e do conhecimento está na forma como nos entrega argumentos objetivos para pensar. Desconstrói preconceitos, cria pontos de ligação entre áreas aparentemente separadas, mostra como apenas a informação rigorosa e testada nos permite olhar para o mundo com limpidez e espírito crítico. Se quisermos, no rescaldo do 25 de Abril e de uma intervenção do chefe de Estado que soube encarar a desinformação e a ditadura do algoritmo como riscos, importa recordar o quanto os populismos e os discursos totalitários detestam a ciência. O ódio, a intolerância, o atropelo aos direitos essenciais, combatem-se com conhecimento. Talvez algumas das mais interessantes reflexões do último sábado se percam rapidamente, porque as palavras tendem a substituir-se umas às outras a uma velocidade vertiginosa, mas vale a pena repeti-las. "Abril não precisa de guardiões solenes. Precisa de cidadãos atentos, livres e com capacidade crítica."
