Esfera pública, o futuro já não é o que costumava ser (III)
O futuro já não é o que costumava ser. A ideia de progresso já não convence e a de inovação assemelha-se, cada vez mais, a uma retórica narrativa acerca da inovação. Os grandes cenários são só grandes cenários para representações apologéticas e justificativas. No resto, a tirania do presente deixa pouco espaço para o futuro, capturado pelos ciclos eleitorais e privatizado pelo individualismo e o narcisismo de cada um. A sociedade tecno-digital presenteou-nos com uma espécie de distopia do tempo, em que a heterocronia temporal nos impele para a necessidade de ensaiar a repolitização do futuro através da prospetiva. Perante o caos anunciado, a repolitização do futuro estará lá, em princípio, para criar estabilidade, verosimilhança, confiança, inteligibilidade, diálogo sério e sereno entre todos os parceiros e representantes políticos.
Quando me refiro à heterocronia da nossa arquitetura temporal já sabemos que existe um risco potencial de colisão entre o tempo global e o tempo local, que o tempo institucional é demasiado rápido para alguns e demasiado lento para outros, que existe o tempo lento das constituições, o tempo moderado das legislaturas, o tempo curto da ação executiva, o tempo imediato da comunicação social. Já sabemos, também, que a ideia de progresso parece antiquada e que as ideias de causalidade e linearidade já não colhem como antigamente. Por outro lado, o tempo vertical do estado-silo perde importância, pois há, cada vez mais, uma pluralidade de tempos que precisam de ser articulados entre si, ou seja, a linha de comunicação da democracia representativa é, hoje, mais horizontal e circular do que vertical, apesar de todos os dias observarmos o contrário.
Perante esta arquitetura temporal de geometria variável, a democracia representativa vive uma espécie de vertigem crítica e muitas disfuncionalidades. Com efeito, os subsistemas socioinstitucionais que a constituem organizaram-se em estruturas corporativas especializadas e muitos delas são influenciadas pela pressão crescente dos grupos de interesse, sejam as grandes consultoras, os interesses empresariais, os grandes fundos da economia financeira, os gigantes tecnológicos, os grupos de media, que impõem os seus ritmos e modelos de negócio, enquanto a judicialização e os litígios crescem na mesma proporção. No final, o Estado-administração-silo-vertical limita-se à socialização e mitigação de prejuízos, à reparação dos danos, mas, obviamente, a deceção política cresce na mesma proporção.
Por todas estas razões, a democracia liberal representativa é uma condição necessária, mas já não é uma condição suficiente para nos conduzir tranquilamente até ao futuro. Na prática, devido à intermitência, inconsistência e descontinuação dos governos de coligação interpartidária, ela é cada vez........
