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Esfera pública, o futuro já não é o que costumava ser (III)

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23.03.2026

O futuro já não é o que costumava ser. A ideia de progresso já não convence e a de inovação assemelha-se, cada vez mais, a uma retórica narrativa acerca da inovação. Os grandes cenários são só grandes cenários para representações apologéticas e justificativas. No resto, a tirania do presente deixa pouco espaço para o futuro, capturado pelos ciclos eleitorais e privatizado pelo individualismo e o narcisismo de cada um. A sociedade tecno-digital presenteou-nos com uma espécie de distopia do tempo, em que a heterocronia temporal nos impele para a necessidade de ensaiar a repolitização do futuro através da prospetiva. Perante o caos anunciado, a repolitização do futuro estará lá, em princípio, para criar estabilidade, verosimilhança, confiança, inteligibilidade, diálogo sério e sereno entre todos os parceiros e representantes políticos.

Quando me refiro à heterocronia da nossa arquitetura temporal já sabemos que existe um risco potencial de colisão entre o tempo global e o tempo local, que o tempo institucional é demasiado rápido para alguns e demasiado lento para outros, que existe o tempo lento das constituições, o tempo moderado das legislaturas, o tempo curto da ação executiva, o tempo imediato da comunicação social. Já sabemos, também, que a ideia de progresso parece antiquada e que as ideias de causalidade e linearidade já não colhem como antigamente. Por outro lado, o tempo vertical do estado-silo perde importância, pois há, cada vez mais, uma pluralidade de tempos que precisam de ser articulados entre si, ou seja, a linha de comunicação da democracia representativa é, hoje, mais horizontal e circular do que vertical, apesar de todos os dias observarmos o contrário.

Perante esta arquitetura temporal de geometria variável, a democracia representativa vive uma espécie de vertigem crítica e muitas disfuncionalidades. Com efeito, os subsistemas socioinstitucionais que a constituem organizaram-se em estruturas corporativas especializadas e muitos delas são influenciadas pela pressão crescente dos grupos de interesse, sejam as grandes consultoras, os interesses empresariais, os grandes fundos da economia financeira, os gigantes tecnológicos, os grupos de media, que impõem os seus ritmos e modelos de negócio, enquanto a judicialização e os litígios crescem na mesma proporção. No final, o Estado-administração-silo-vertical limita-se à socialização e mitigação de prejuízos, à reparação dos danos, mas, obviamente, a deceção política cresce na mesma proporção.

Por todas estas razões, a democracia liberal representativa é uma condição necessária, mas já não é uma condição suficiente para nos conduzir tranquilamente até ao futuro. Na prática, devido à intermitência, inconsistência e descontinuação dos governos de coligação interpartidária, ela é cada vez mais lenta e inconsequente nos seus procedimentos de debate, concertação, legitimação, regulação, execução, validação e comunicação, pelo que precisa, urgentemente, de ensaiar a transição para procedimentos mais ágeis e eficazes de democracia participativa, colaborativa e consultiva e onde uma prospetiva responsável ocupe um lugar de maior relevo.

Aqui chegados, como vamos construir politicamente a nossa responsabilidade coletiva perante o futuro, ou seja, como vamos repolitizar o futuro, sabendo nós que a nossa competência imediata é, apenas, uma face do problema, os limites da nossa responsabilidade, a outra face, e que a nova política consiste, justamente, em reforçar e reinventar a nossa capacidade coletiva de antecipação e configuração perante o futuro? Vejamos, então, algumas boas razões para reforçar e reinventar esta capacidade.

Em primeiro lugar, o pessimismo é o nosso maior inimigo nesta altura. A nossa liberdade criativa e a nossa responsabilidade prospetiva estão sob suspeita, mas são imprescindíveis. Acabaram as grandes narrativas da retórica ideológica, agora é o tempo dos projetos de reforma estrutural, projetados e desejados, mas, também, dos bens comuns e coletivos das comunidades inteligentes que requerem muita ponderação e moderação por causa dos impactos dos riscos globais.

Em segundo lugar, é importante dispormos de uma teoria crítica da prospetiva. Como dissemos, a diferenciação dos tempos e velocidades está muito presente e serve para definir o projeto democrático e o ritmo da governação. Estamos, portanto, num mundo dessincronizado, com muitas heterocronias. A distância deixou de contar, é o tempo que decide. Sabemos que o futuro resiste aos nossos prognósticos por mais sofisticados que eles sejam, que o futuro é a projeção dos nossos medos e esperanças, que nunca foi tão enigmático como agora. Dispor de uma teoria crítica acerca do futuro é considerar o futuro como realidade preexistente, como processo de conhecimento científico, o futuro como complexidade, interdependência e risco sistémico.

Em terceiro lugar, os atores institucionais precisam de aprender coletivamente a sua responsabilidade sistémica partilhada. Com efeito, está em causa o modo de agir e reagir face ao risco global. Ou seja, o policy-framework do futuro deve formular todo este enquadramento da responsabilidade partilhada entre o ator político, o ator institucional e o ator privado. É crucial a produção de capital social na forma de saber compartilhado, estruturas de cooperação, mediação, intermediação e aprendizagem coletiva. Se quisermos, é bem-vinda uma mistura de regulação pública, autorregulação e hétero-regulação, para reduzir as disfuncionalidades e descontinuidades, bem como o risco moral das externalidades negativas.

Em quarto lugar, a política do futuro será mais heterárquica e policontextual. Está em causa a interação entre os subsistemas socioinstitucionais, a sociedade civil e os grupos organizados. A política do futuro terá de se preparar para a perda de centralidade do Estado e para a dessacralização da política tal como ela é entendida hoje, ou seja, doravante, haverá muito mais política para lá da política. Não obstante, a política nunca foi tão importante como hoje, ela vive em concorrência imperfeita com os outros poderes da sociedade e deve cultivar essa relação horizontal porque é nessa hétero-regulação que reside hoje a solução para os principais problemas da sociedade.

Em quinto lugar, a cultura política da contingência convive com a insegurança e a incerteza. Este é um dos grandes paradoxos que acompanham sempre a liberdade. Os limites, a ordem, os contextos reconhecidos são já uma espécie de nostalgia. Hoje, os cidadãos parecem mais sensíveis aos riscos do que às oportunidades. As pessoas movem-se mais por indignação e reação do que por esperança política no futuro. O futuro tornou-se suspeito e não é especialmente prometedor. Ninguém acredita nas promessas da política. Estamos na era da política negativa e ser contra o sistema instituído rende mais do que fazer promessas ao futuro. O populismo e o poder autocrático ganham terreno.

Em sexto lugar, o desafio atual é tornar a incerteza, a insegurança e a contingência atividades reflexivas de máxima prontidão. Estruturas de missão capazes de identificar os problemas, distribuí-los no tempo, evitar as redundâncias, prevenir os efeitos não-intencionais são tarefas fundamentais do exercício prospetivo. Assim, a política deve passar do estado normativo ao estado cognitivo, isto é, de uma atitude ideológica para uma atitude intencional e pragmática, seja na fase preventiva ou na fase de emergência.

Em sétimo lugar, a política do futuro estará prisioneira do tempo útil. O tempo útil é o tempo das influências e das pressões sobre a administração que, assim, fica sem tempo útil para justificar e explicar os seus próprios projetos. A política do futuro tem de estar avisada e impedir esta colonização externa e a corrupção respetiva. O assédio proveniente de outras esferas públicas como a economia, o direito e a comunicação será enorme e retira à administração a atenção e capacidade necessárias para a gestão prospetiva.

Em oitavo lugar, o realismo político é muito mais do que a realidade. Os ângulos de observação da realidade são muito variados, por isso, a ideia que temos do real é fundamental, sem esquecer que há o campo imenso das possibilidades que precisam de ser exploradas. A política não é uma profissão, é uma inquietação permanente que abre muitas pistas e outros tantos sentidos para a ação política. Essa inquietação acerca do futuro é que nos faz desejar muitas coisas acerca do futuro.

Em nono lugar, vivemos num mundo de consequências secundárias, não intencionais, não previstas. Quando transformamos uma decisão numa ação tudo pode acontecer. As consequências secundárias transformaram-se em propriedades do mundo atual, o que nos obriga a revisitar um conceito abrangente de responsabilidade coletiva e passar a ter uma conceção mais processual e procedimental de responsabilidade. Chama-se a isto uma governação indireta e contextual com a missão de disponibilizar serviços de interesse geral para gerir riscos coletivos, reduzir a incerteza, regressar aos bens comuns e gerar mais confiança nos procedimentos de supervisão e regulação.

Finalmente, o futuro como laboratório e campo de ensaios para o exercício da responsabilidade coletiva partilhada. Na sociedade tecno-digital em que vivemos este propósito deve ser levado muito a sério, sabendo nós que há muitas inércias na sociedade atual que impedem a realização do bem comum coletivo. Os efeitos externos da globalização dizem-nos que vivemos num mundo de responsabilidade limitada e não sabemos como antecipar e atacar os riscos globais. As causas dos problemas não são diretamente imputáveis, é um mundo de irresponsabilidade completa onde prevalece a desordem internacional pós-estruturalista com forte impacto na política doméstica.

No atual contexto, as tendências, as previsões, as predições e os cenários tomaram conta da prospetiva. Cuidado, pois, com os prognósticos, podem servir apenas para legitimar certas decisões, têm carácter normativo e a investigação de tendências pode servir para instrumentalizar o futuro, como têm feito todas as ideologias. Cuidado, também, com a origem do saber. Quando o saber se torna também ele incerto, então passa a ser objeto da política e que grau de incerteza é aceitável é uma questão política. Se há incerteza precisamos de voltar a aprender coletivamente. É certo, a política não pode resolver tudo, não se confunde com o Estado-administração, nem este tem a obrigação universal de resolver todos os problemas. Além disso, a autolimitação da política não se deve confundir com a política de estado mínimo. Mas não esqueçamos, o fim da política é o fim da democracia. E o fim do futuro. Por isso, a antecipação e a responsabilidade prospetiva precisam de ser encaradas seriamente, educadas e praticadas, sob pena de se converterem em inércia, medo e deceção. Temos todos de conservar uma relação saudável, empática e racional com o futuro. Lembremo-nos de que o abandono de uma grande ilusão pode dar lugar a um grande projeto e que a esperança, o conhecimento e a imaginação, na dosagem certa, nos podem levar longe. Pelo contrário, sem essa temperança, o ativismo e a resignação não nos levam a lado nenhum.


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