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Esfera pública, a crise de mediação no espaço democrático (I)

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23.02.2026

Um dos aspetos que mais nos inquieta na novel sociedade tecno-digital é a crescente desvinculação da política como espaço de mediação e regulação e, correlativamente, os fenómenos de privatização do público e politização do privado operados com ligeireza pelos media e as redes sociais que não hesitam em derramar o privado na esfera pública. Cada vez mais, aquilo a que chamamos esfera pública está transformado num espaço de violação de direitos fundamentais e de encenação e representação permanentes. As disfuncionalidades observadas no espaço público são cada vez mais evidentes. A cidade carrega o valor da cidadania, mas é incapaz de promovê-lo. Os espaços públicos desaparecem com a fragmentação da paisagem urbana. A gentrificação, a periurbanização, os guetos urbanos, os condomínios privados, a insegurança privada e a vigilância pública dominam a paisagem urbana segmentada.

Ora, neste contexto, cada vez mais hostil, a representa indireta da política precisa de ser articulada e complementada por uma representação de proximidade de natureza mais comunitária e associativa que se constitua como uma proteção cívico-política face à pretensa representação direta veiculada pelo populismo demagógico. É aqui que a esfera pública se encontra estacionada, neste caldo tépido de representações descontínuas e interesses dissonantes. A representação indireta, político-institucional, precisa de uma esfera pública que promova e proteja as comunidades inteligentes e criativas (CIC) da sociedade civil sem as quais não haverá interlocutores acreditados, e tanto mais quanto a democracia tem revelado dificuldades em se organizar em redor de interesses comuns.

Nesta lógica das representações a várias velocidades a cidade vive um dilema, a saber, o centralismo é pouco discriminatório e diferenciado para atender a todas as situações, o localismo é difuso e disperso em demasia e muito sobrecarregado pelos custos de contexto e redistribuição. Entretanto, as comunidades inteligentes e criativas (CIC) do movimento associativo e colaborativo não estão, ainda, suficientemente consolidadas para contrariar os interesses corporativos através da........

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