A cor dos dias pardos
António fez 80 anos ontem. É um homem culto, abrasado pela lucidez. Já não se inquieta com a proximidade do fim que a sua idade espreita. Incendiou os últimos anos numa afanosa reflexão sobre a vida e a morte e já não lhe sobra o que lucubrar ou o que esperar. Martela-lhe o pensamento a sabedoria de Régio e revê-se singelamente no seu poema: ”(...) Hoje, é que nada espero. Para quê, esperar? Sei que já nada é meu senão se o não tiver; se quero, é só enquanto apenas quero; só de longe, e secreto, é que inda posso amar...E venha a morte quando Deus quiser. (...).” No seu desencanto, ao cruzar as ruas e os lugares, invade-o a impiedosa sensação de invisibilidade. A velhice vai tornando os homens invisíveis aos olhos dos outros. Aquilo que era uma pessoa inteira, digna de uma qualquer atenção e interesse, vai-se transmutando em gente com quem se esbarra, mas que se ignora, uma silhueta indiferente adjectivada só........
