O único necessário: uma regra de vida para mães
“Marta, Marta, tu te afadigas e andas inquieta com muitas coisas...”. Estas palavras de Jesus no Evangelho, ditas em casa de seus amigos, lá em Betânia, continuaram ecoando pelos séculos – e se aplicam, curiosamente, a qualquer um de nós. De fato nós nos afadigamos com muitas coisas, e nos inquietamos, e a frase do Salvador – que tem, no vocativo, a dupla repetição do nome, como uma repreensão paterna, uma bronca amorosa – serve para todos os intranquilos. Mas, sejamos agora ainda mais francos: homem e mulher não se afadigam nem inquietam do mesmo modo, sejam lá quais forem suas ocupações, e o fato de as palavras de Jesus serem dirigidas a uma Marta atabalhoada justamente com os afazeres domésticos deveria fazer com que as senhoras do lar, esposas e mães, atentassem a elas de modo ainda mais especial. Podemos, muito facilmente, trocar “Marta” pelo nosso próprio nome.
Quem se afadiga e inquieta mais que uma mãe de família? Ah, estamos mesmo sempre ocupadas, com as mil e uma demandas da casa e dos filhos – cabelos, sapatos, lanches, remédios –, isto ainda sem pensar na louça e na roupa, nos lençóis e na sala, sem pensar no que nos pede o marido, naquilo que faltou comprar, naquilo outro que quebrou... E ainda estamos falando das coisas materiais, nem entramos, como poderíamos entrar (houve e haverá ainda outras oportunidades de entrarmos nisso), nas nossas graves responsabilidades como educadoras, como formadores da alma e do caráter. Nem é preciso dizer que falta-nos tempo para cuidarmos de nós próprias, que falta “tempo para nós”, como hoje em dia se ouve da boca de tantas mães cansadas e estressadas.
E a piedade, então? Como faremos longas meditações, como reservaremos tempo para o recolhimento, para o exame de nossa própria consciência, e aquelas outras práticas que, à preferência de cada uma, nos conectam com o alto? Que tempo há de sobrar, ao fim de um longo e agitado dia, para Deus, Nosso Senhor? É claro que não sobra tempo para Deus. Porém, é preciso ter bem claro o seguinte: Deus não quer de nós o tempo que sobra. (Lembremos que, na Bíblia, o Senhor rejeitou os despojos de Caim, e se agradou com as primícias de Abel.) Ele quer que, como Maria, irmã de Marta, cuidemos primeiro da melhor parte.
Mas olhemos para Marta com a devida justiça: tudo o que ela faz, faz porque quer agradar ao Senhor, não por outro motivo. É Jesus quem ela recebe em sua casa, e é para Ele, e para o seu apostolado, que ela quer dar conta do serviço e da casa. Também Marta quer ser discípula de Jesus, e portanto quer ser perfeita. Ela também quer progredir no amor, na piedade, na interioridade – naquilo que, numa palavra, se chama de santidade. Acaso não há caminho para ela, para nós ocupadas? Estaria a santidade reservada só às religiosas, e não a nós que temos casa, marido e filhos? Como ser perfeita em meio às ocupações? Como ater-se ao único necessário, tendo de afadigar-se com tantas coisas?
Nossa vida é muito ativa e cheia de ocupações que consomem quase todo o nosso tempo. Essas ocupações nos afastam de Deus? São elas um obstáculo à nossa santidade? Não, certamente não, desde que sejam espiritualizadas por um princípio superior e uma intenção sobrenatural. A nossa perfeição será cumprir a vontade de Deus de modo constante e generoso e, assim sendo, pode e deve harmonizar-se com todo estado e........
