menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A plenitude do tempo e o nosso exílio

14 1
29.12.2025

Quando o Sol rejuvenescente desponta no horizonte, e seus raios dourados vão tomando de assalto a escuridão medonha, é porque à noite sucedeu o dia, e sabemos com segurança que este não há de retroceder até o seu ocaso. Vemos o astro reinante subir com constância, até imperar sobre o pino do meio-dia; então todos se recolhem para o descanso do trabalho e para tomar o alimento, e depois, no lado oposto do céu, veremos a descida, igualmente constante, do Sol para detrás do horizonte no ocidente. Assim, aos olhos de todos e sem nenhuma dificuldade, se mede um dia, o qual pode representar, simbolicamente, o trajeto completo de uma vida, e qualquer outro ciclo. Para além do dia, porém, medir o tempo não é tão simples como parece: tanto no varejo dos minutos e dos segundos, por onde escorrem nossos humores passageiros, como no acúmulo dos anos, dos septênios ou décadas, os homens se perdem, e o testemunho da memória de cada um pode diferir bastante.

Desde sempre o homem se esforçou muitíssimo para medir e dimensionar o tempo, e para registrar essas medições, como modo de enquadrar o sentido dos eventos e legar em herança a memória do passado. O modo mais comum, nos tempos antigos, era referir-se aos reinados. As eras eram designadas pelo nome do senhor daquele tempo: “Durante o reinado de Fulano de Tal”, “àquela época reinava sobre a região tal Beltrano”, ou que fosse “a tantos anos do reinado de Sicrano tal outro”. E toda vez que um novo monarca ascendia ao trono, promovia, de algum modo, um reinício da contagem do tempo, buscando dar a si mesmo a importância de marco central, de referência, de nome acima dos outros nomes – Mas “todos os que vieram antes de mim são usurpadores”... (cf. Jo 10).

Mesmo nos tempos mais recentes, nas grandes revoltas ateias a que se assistiu no Ocidente, como na Revolução Francesa e em várias das revoluções comunistas, os ditadores tentam também zerar o calendário para que a sua ascensão seja vista como o marco zero da contagem do tempo e o verdadeiro início da história. Zerar a contagem das eras em dado evento teve todas as vezes a intenção de afirmar que este era o mais importante, porque mudava tudo de uma vez para sempre.

Contudo, apenas uma coisa mudou tudo de uma vez para sempre.

Este Senhor que, ao nascer, não reservou para si nem ao menos um lugar, mostrou assim que se exilava até mesmo da exuberância de sua divindade

Sucedem-se eras sobre eras, erguem-se impérios continentais, que depois se corroem por dentro, apodrecem e deitam aos pés do próximo século; giram revoluções após revoluções, que trucidam povos e vertem flumens de sangue pelas nações, para agarrar o poder; fundam-se países e países deixam de ser, levantam-se governantes fortes e esses fortes logo tombam como fracos. Mas nada disso mudou tudo para sempre, como mudou, efetivamente, a Encarnação silenciosa da Palavra Eterna.

Com o nascimento de Cristo – aquele, este, que celebramos há pouco, que estaremos ainda a celebrar até a festa da Epifania, e que celebraremos, ano após ano, sem reiniciar a contagem, até o fim dos tempos! – alterou-se permanente e irreversivelmente o relacionamento entre Deus e o homem, entre o Céu e a Terra, entre a vida e a morte, e entre o tempo e a eternidade, e por isso ele marca o tempo indelevelmente, porque não pertence apenas ao tempo, mas cruza-o desde cima numa vertical. O que significa ser humano, após a Encarnação, é radicalmente........

© Gazeta do Povo