menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O apagamento histórico do Império e o nascimento de nossa tragédia

6 0
09.09.2026

“Não será, pensei de mim para mim, que a República é o regime da fachada, da ostentação, do falso brilho e luxo de parvenu, tendo como repoussoir a miséria geral? Não posso provar e não seria capaz de fazê-lo.” (Lima Barreto)

Após um vídeo gravado no último fim de semana e postado em meus stories do Instagram, a mensagem recebida de uma seguidora confirmou minha impressão: “moro aqui e nunca tinha ouvido falar disso”. Eu falava e mostrava um dos monumentos mais importantes de nossa história, mas que, atualmente, se tornou invisível para aqueles que transitam pela famigerada Praça XV de Novembro, no centro do Rio de Janeiro: o Chafariz do Carmo.

Mestre Valentim – como ficou conhecido Valentim da Fonseca e Silva (c. 1745-1813) –, seu construtor, foi um dos principais artistas do Rio de Janeiro colonial e teve um importante papel nas reformas urbanas promovidas pelo vice-rei dom Luís de Vasconcelos e Sousa. Mulato, filho de um português e de uma mulher escravizada, foi escultor, entalhador, ourives e projetista. O Chafariz do Carmo, obra belíssima em estilo barroco, foi concluído em 1789, à beira do cais, e tinha uma função prática fundamental: abastecer de água a população e, sobretudo, as embarcações que chegavam ao porto.

Por ter sido um golpe quase tímido, sem qualquer apelo popular, o novo regime republicano precisou de um grande esforço para reformar o imaginário da população e imprimir nele os seus símbolos

Por ter sido um golpe quase tímido, sem qualquer apelo popular, o novo regime republicano precisou de um grande esforço para reformar o imaginário da população e imprimir nele os seus símbolos

Foi ao lado desse chafariz, numa pequena escadaria – que, na ocasião de minha filmagem, tinha um saco de lixo num dos degraus –, que, em 7 de março de 1808, dom João VI e a família real portuguesa desembarcaram para aqui estabelecerem a sede da monarquia portuguesa e do governo do Império Português. Sete anos depois, o próprio Brasil seria elevado à condição de Reino, e o Rio, capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Mas nada disso é informado no local. O chafariz, hoje desativado, é só um monumento ignorado em meio a outros, igualmente ignorados, naquela praça imensa, linda se não estivesse tomada de camelôs, que foi palco de alguns dos maiores acontecimentos de nossa história e que hoje são meros fantasmas na memória daqueles que, como eu, se importam. A própria renomeação da praça, que se chamava Dom Pedro II, foi parte desse avassalador projeto de apagamento promovido pelos golpistas republicanos a fim de contarem a história do país a seu modo. Como nos diz José Murilo de Carvalho em seu A formação das almas:

“[...] Foi grande o esforço de transformação dos principais participantes do 15 de novembro em heróis do........

© Gazeta do Povo