A noite em que a Segunda Guerra Mundial parou
Tio Vicente morreu na noite de Natal. No cemitério de Araçatuba, enquanto nos despedíamos dele, vi o túmulo de uma família japonesa, diante do qual minha mãe sempre parava alguns minutos para rezar. Um dia, ainda criança, perguntei-lhe a razão desse costume; então, ela me contou uma história.
Embora fosse apenas um menino de dez anos, Vicente não pôde ignorar que alguma coisa muito grave estava acontecendo na casa da família Costa. Maria, sua irmã mais velha, estava para dar à luz. Seria seu primeiro sobrinho e o primeiro neto de Pai Costa e Mãe Mulata.
Era domingo. Durante o dia inteiro, a família parou para acompanhar o drama de Maria. Ela gritava desesperadamente, sofrendo dores atrozes. Mãe Mulata mandou chamar Isabel, a melhor parteira da região.
Isabel, famosa pela calma ao exercer o seu ofício, estava diferente naquele domingo: entrou na casa da Rua Castro Alves com uma expressão tensa. Da esquina, já era possível ouvir os gritos de Maria. Isabel sabia que a moça tinha a saúde muito frágil; com apenas 22 anos, a filha de D. Mulata já estivera algumas vezes entre a vida e a morte.
Em silêncio, todos na casa não podiam deixar de pensar que Maria estava prestes a sofrer o mesmo destino dos dois filhos mais velhos da família Costa: João, o Fiuco, morto aos 11 anos de febre tifoide; e Iracema, a linda Iracema, que pôs fim à própria vida com apenas 19 anos, tomando veneno.
Pai Costa fingia ler o jornal na cadeira de balanço; pensava nos dois filhos perdidos e no dia em que fora abandonado pelos pais portugueses e ficara sozinho........
