Relatório do cardeal Roche sobre liturgia está cheio de problemas
Continuo rezando para que Leão XIV conduza seu pontificado como Deus quer, e não como eu quero. Mas, se dependesse de mim, um prefeito da Cúria Romana que já estaria fazendo as malas é o cardeal inglês Arthur Roche, do Dicastério para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos. E ele acabou de dar mais um motivo para isso, com o relatório que distribuiu aos cardeais participantes do consistório extraordinário recém-terminado, e que foi divulgado pela vaticanista Diane Montagna na semana passada. O encontro, lembremos, foi convocado pelo papa com quatro temas: sinodalidade, reforma da Cúria, evangelização e liturgia. Para cada tema houve um relatório desses, entregue aos cardeais, e Roche ficou com a redação do texto sobre liturgia – algo esperado, diante do cargo que ocupa, mas que demonstrou o quão equivocadas são algumas de suas percepções.
Pela maneira como o consistório se desenvolveu, o texto teve um efeito indesejado: como o pouco tempo fez com que só dois dos quatro temas fossem debatidos, e a liturgia não foi um deles, o texto do cardeal Roche acabou sendo a única manifestação sobre o assunto, sem a chance de ser contestado por ninguém, dando a Roche uma “vitória por WO” no debate. O lado bom é que, se o consistório já convocado para junho resolver tratar da liturgia e da reforma da Cúria (o outro tema deixado de lado duas semanas atrás), haverá tempo mais que suficiente para outros cardeais prepararem e apresentarem respostas matadoras ao relatório de Roche – que, convenhamos, é muito ruim, como vários comentaristas já demonstraram nos últimos dias.
Com apenas duas páginas, o texto de Roche é uma reafirmação do que diz o papa Francisco em Desiderio desideravi e, especialmente, em Traditionis custodes, o motu proprio que impôs severas restrições à celebração da missa tridentina. A esperteza do texto do cardeal é partir de algumas premissas verdadeiras, com citações cujo acerto é impossível contestar, para chegar a uma conclusão falsa que justifique a proibição (se não absoluta, ao menos bastante ampla) do uso do missal de 1962 – o último antes da reforma litúrgica de 1969, que instituiu a missa como a maioria dos católicos de rito latino a conhece hoje.
Chega a ser incrível ler Roche falar na unidade da Igreja como “bem prioritário” enquanto seu dicastério promove uma caça à missa tridentina que aprofunda divisões
Alguém haverá de duvidar que, de fato, “a Tradição não é transmissão de coisas ou palavras, uma coleção de coisas mortas. A Tradição é o rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre presentes”, como afirmou Bento XVI em uma audiência de 2006? Ou que a unidade da Igreja é um bem a ser buscado e preservado? Ou que “não vejo como se possa dizer que se reconhece a validade do Concílio – se bem que me surpreenda que um católico possa ter a pretensão de o não fazer – e não aceitar a reforma litúrgica nascida da Sacrosanctum Concilium”, como afirmou Francisco em Desiderio........© Gazeta do Povo
