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Análises de Conjuntura não perdem os velhos vícios

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28.04.2026

Os bispos do Brasil já estão de volta a suas dioceses, depois de uma semana e meia em Aparecida, para a 62.ª Assembleia Geral da CNBB, realizada neste mês de abril após o cancelamento do evento no ano passado, decorrente do falecimento do papa Francisco e da convocação do conclave. E, ao longo dos últimos dias, pudemos ver que algumas coisas infelizmente não mudam: uma delas é o tom ideologicamente carregado das Análises de Conjuntura apresentadas aos bispos durante o evento.

A Análise de Conjuntura Social é um tijolo de 99 páginas. Praticamente todos os bispos com quem troquei mensagens logo na sequência da divulgação do documento me disseram que não o haviam lido, e talvez o fizessem quando tivessem algum tempo. No máximo, haviam feito alguma “leitura diagonal”, suficiente para apontar o “estilo cansativo” e o viés ideológico. E, de fato, ninguém precisava mergulhar no texto para ver que os velhos vícios permanecem.

Dessas quase 100 páginas, 40 são dedicadas à guerra travada entre Irã, Estados Unidos e Israel. O leitor mais suscetível terminará essa parte querendo se alistar na Guarda Revolucionária, tão comovente é a narrativa dos autores sobre um país que enfrenta uma ameaça existencial – e não, não estamos falando daquele outro país, que é atacado desde o início de sua existência por vizinhos que não o reconhecem e pregam seu extermínio, e que, mesmo tendo armas nucleares, não as usa, ciente da doutrina da Destruição Mútua Assegurada.

“Ao sobreviver a décadas de sanções, isolamento, sabotagem e pressão diplomática, o Irã demonstra, na prática, que a ordem regional patrocinada pelos EUA encontra limites.”Trecho da Análise de Conjuntura Social.

“Ao sobreviver a décadas de sanções, isolamento, sabotagem e pressão diplomática, o Irã demonstra, na prática, que a ordem regional patrocinada pelos EUA encontra limites.”

É claro que, para fazer uma defesa tão enfática do regime dos aiatolás, é preciso empurrar alguns fatos incômodos para baixo do tapete. As tentativas iranianas de conseguir uma bomba atômica? A esse respeito, a análise menciona uma fatwa para inglês ver, enquanto omite o que disse, semanas atrás, o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi: “Nenhum país sem armas nucleares enriquece urânio como o Irã”. Repressão governamental aos protestos de rua, com milhares (talvez dezenas de milhares) de mortes? Nada. Até existe uma menção à “dureza dos aparatos de segurança”, mas no fim de uma frase digna dos grandes passadores de pano: “o medo da fragmentação e da ingerência externa nas periferias étnicas ajuda a explicar tanto a centralização política quanto a dureza dos aparatos de segurança”.

E o financiamento do Irã ao terrorismo internacional? Há raríssimas menções no documento ao Hamas e ao Hezbollah, reduzidos a uma mera rede de “milícias alinhadas a Teerã”; os grupos nunca são chamados pelo que realmente são. Em vez de terroristas, não passariam de “uma rede de atores que reduzem sua [de Israel] liberdade de ação e mantêm abertas múltiplas frentes de pressão”, como se estivessem fazendo algo legítimo, e não explodindo e massacrando civis em atos como o de 7 de outubro de 2023. O Irã, portanto, não........

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