A fraude começa antes da urna
A obsessão com máquinas de votação ou cédulas de papel nas urnas banaliza as denúncias e esconde a verdadeira vulnerabilidade das democracias latino-americanas: o controle das candidaturas, da informação, da logística e das regras do jogo. Por causa disso, quase que na totalidade das vezes, o grito de fraude eleitoral virou palavra de perdedor.
Basta perder uma eleição para que algum candidato, partido ou influenciador descubra, subitamente, que as urnas eram suspeitas, o sistema estava programado e uma conspiração internacional havia escolhido o vencedor com antecedência. Não importa se o país usa cédulas de papel, máquinas eletrônicas ou uma combinação dos dois. A derrota passou a ser tratada como prova do crime.
A direita faz isso. A esquerda também. Em comum, ambas produzem o mesmo estrago: transformam uma acusação gravíssima em uma retórica que esvazia o problema real. Quando tudo é fraude, nada mais é fraude. E para que então eleição se elas não servem para nada? Isso é uma capitulação que faz mal a um dos pilares da democracia. Pilar esse que está, sim, sob ameaça, mas não pela maneira que muitos querem que pensemos que esteja.
A banalização esvazia o debate público, alimenta a indústria digital da indignação e polarização e destrói a capacidade de distinguir uma eleição apertada de uma eleição manipulada. O derrotado ganha uma desculpa. O vencedor perde legitimidade. E os verdadeiros fraudadores recebem o melhor dos presentes: uma cortina de fumaça.
Tenho observado o caos eleitoral da América Latina e tenho uma sensação de que o erro está em imaginar que uma eleição se resume aos minutos passados diante da urna. O voto é apenas o capítulo final de um processo que começa meses antes. A integridade eleitoral depende de quem pode concorrer, de quem pode falar, das regras impostas às campanhas, da liberdade da imprensa, da logística dos locais de votação, da fiscalização, da cadeia de custódia das atas........
