Os riscos e os benefícios de escrever com IA
Diógenes Laércio registrou que o início da República foi encontrado nas tábuas de cera de Platão diversas vezes reescrito. Platão, o filósofo que desconfiava da palavra escrita, passou décadas lapidando a frase com que Sócrates abre o célebre livro: “Ontem desci ao Pireu...”.
Uma frase curta, quase banal. Entretanto, essa pequena frase precisava dizer exatamente o que a ideia exigia, sem sobrar nem faltar. Diante das pequenas tábuas, Platão colocava a única pergunta que importa a quem escreve com seriedade: o que esta frase ainda esconde?
Descendo ao nosso mundo, Natalia Beauty colocou-se outra questão. Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, ela confessou seu manejo com as palavras: dita as ideias, a IA organiza, estrutura e redige. Ela revisa e publica. O pensamento seria dela. A arquitetura argumentativa, da máquina. Ironicamente, a frase que expôs sua posição – “Meus textos usam inteligência artificial; meu pensamento, não” – soou imediatamente como produto de IA.
A polêmica dividiu opiniões de forma previsível. Os entusiastas celebraram a maturidade tecnológica, a honestidade e a coragem de Natalia. Os críticos diagnosticaram o empobrecimento. A fraude. Os riscos. Os dois lados identificaram sintomas reais. Também darei os meus palpites.
Se não é você que escreve, não é você que pensa
Se não é você que escreve, não é você que pensa
Natalia pressupõe que o pensamento chega pronto à escrita e que a linguagem é apenas uma embalagem. Ela pensa, a IA embala. Natalia está errada aqui.
De Sócrates a Hannah Arendt, o ato de pensar foi definido........
