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Os rituais de coesão das elites: o caso Epstein

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06.02.2026

“Com efeito, nossa religião, mostrando a verdade e o caminho único para a salvação, diminuiu o valor das honras deste mundo. Os pagãos, pelo contrário, que perseguiam a glória (considerada o bem supremo), empenhavam-se com dedicação em tudo que lhes permitisse alcançá-la. Vê-se indícios disto em muitas das antigas instituições, a começar pelos sacrifícios, esplendorosos em comparação com os nossos, bastante modestos, e cujo rito, mais piedoso do que brilhante, nada oferece de cruel capaz de excitar a coragem.” (Maquiavel, Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio)

Há algo de profundamente revelador no fato de que os rituais de coesão das elites modernas recorram quase sempre a uma simbologia pagã, pré-cristã ou abertamente ocultista. Essa escolha não é acidental nem meramente decorativa. Ela responde a uma necessidade estrutural do poder quando este busca sacralizar-se sem se submeter ao juízo moral comum — e, menos ainda, a uma moralidade objetiva e divinamente fundada.

O cristianismo introduziu no mundo algo intolerável para qualquer classe dirigente que aspire à autonomia absoluta: uma lei moral eterna, válida para todos, inclusive – e sobretudo – para os detentores do poder terreno. Um Deus que se encarna, morre como vítima inocente e promete julgar vivos e mortos dissolve qualquer pretensão iniciática. Não há, diante dele, homens perfeitos, castas espirituais ou permissões secretas. Tudo vem à luz. Tudo é revelado. “Nada ensinei em segredo”, diz Jesus Cristo nos Evangelhos (Jo 18,20). Por isso, quando o cristianismo recua da vida pública, ele não é substituído pela neutralidade espiritual imaginada pela mente secular, mas por formas alternativas de sacralidade.

O escândalo Jeffrey Epstein inscreve-se nesse........

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