menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Sicários, jagunços, política e máfia: por que o Brasil não muda

12 0
saturday

Estamos assistindo ao enésimo caso de violência política de alto escalão, um caso que, na verdade, não deve nada ao crime organizado puro: ordens para “quebrar os dentes” e “moer” pessoas, sicários que tentam se matar em circunstâncias suspeitas etc.

Quem se lembra de quando um importante político, ex-senador e hoje deputado federal, disse “tem de ser um que a gente mata ele antes de fazer delação”? Ou quando um juiz, assessor do então presidente do TSE, afirmou que “dá vontade de mandar uns jagunços pegar esse cara na marra e colocar num avião brasileiro”? E os casos Marielle Franco? Celso Daniel? Marcos Valério? PC Farias? E os inúmeros casos que ocorrem no interior do país e dos quais nem chegamos a saber? E, antes de matar, não se faz ameaças? Quantos vezes alguém recua ao ser ameaçado, e nem ficamos sabendo?

Esses diálogos da “Turma” de Daniel Vorcaro são, na verdade, o enésimo caso que não é um caso; é a norma. Não quer dizer que não seja gravíssimo, mas a política se tornou isso: favores, acordos, ameaças, chantagem.

Por que casos como o do Banco Master se repetem e continuarão se repetindo? Porque as regras e os incentivos não mudaram

Por que casos como o do Banco Master se repetem e continuarão se repetindo? Porque as regras e os incentivos não mudaram

A cada novo escândalo as pessoas ficam chocadas, mas apenas porque se esquecem ou não conhecem o passado; elas se desiludem, mas só porque antes se iludiram, porque são idealistas, porque querem ser otimistas, querem ter “positive vibes”, porque repetem o tempo inteiro que “dessa vez não vai ficar impune”, perguntam-se como “o Brasil pode dar certo” etc.

Por que as coisas não mudam? Por que esses casos se repetem e continuarão se repetindo? Porque as regras e os incentivos não mudaram. Porque o idealista se ilude ao crer que basta mudar as pessoas, que tudo só depende da boa vontade. A verdade é que quem tem o poder tende a expandi-lo e abusar dele. E ninguém coloca limites.

Cansei de dar palestras e ouvir “você acabou com minhas esperanças”. Mas sou eu quem acaba com suas esperanças? Ou são os fatos, os telejornais, os sites de notícias? A ciência política tem o papel de criar esperanças? Não; a ciência política descreve e prevê. Você poderia ficar feliz em aprender como funciona o mundo e conseguir prevê-lo; seu conhecimento e seu domínio em relação ao mundo crescem. Quem precisa que alguém mantenha sua esperança não é um adulto, e quem coloca suas esperanças na política é ingênuo.

Não é ricos contra pobres, é governantes contra governados

Escândalos, fraudes, espoliação e o Estado como máfia

Os governos que escondem tudo do cidadão

Mas, então, por que as pessoas pensam assim? Porque fomos feitos para acreditar, para obedecer, para nos subjugar. Somos parte do mecanismo. Muitos negam a realidade porque reter informações negativas no cérebro dói. Preferem o autoengano para manter pensamentos positivos na mente. Isso faz bem individualmente, psicologicamente, no curto prazo; mas, no longo prazo, faz mal coletivamente e politicamente.

Vamos desenhar como funciona na real: se a política tem o poder de decidir sobre cada folha que se move, alguns, então, pedem um favor; ameaçam ou dão algo em troca para obtê-lo (Pablo Escobar dizia “plata o plomo”). Quem não aceitar recebe mais pressão e acaba expulso do sistema. Quem aceitar entra no esquema e, uma vez dentro, torna-se tão culpado quanto os outros; agora, tem esqueletos no armário. Continua recebendo favores e/ou sendo ameaçado e chantageado. Por isso, raramente as coisas vêm à tona. E, quando vêm, logo se descobre que estão todos envolvidos. É cleptocracia, é o conluio entre big business e big government, é oligarquia, é la casta, é máfia. Não por acaso um banco privado é o banco mais entrelaçado com a política em todo o país!

O Estado só se comporta bem depois que o povo o enquadra, o contém e o limita

O Estado só se comporta bem depois que o povo o enquadra, o contém e o limita

“Lá fora não é assim”, dirão. Errado: é assim no mundo todo. O mundo não é Suíça e Suécia. A Europa é uma fração; o mundo é África, Ásia, América Latina etc. Só em alguns poucos países é um pouco melhor. E por quê? Porque lá limitaram o Leviatã. O Estado só se comporta bem depois que o povo o enquadra, o contém e o limita.

É preciso ter uma visão realista e adulta da política, chamar as coisas pelo nome, encarar o monstro nos olhos, aceitar a realidade e lidar com ela de forma pragmática. Entender qual a essência da política, parar de querer mudar a natureza e focar no que podemos mudar realmente (porque sim, há várias coisas que podemos mudar). Quem entende que a política funciona assim vai querer limitá-la, como aconteceu na Europa e nos Estados Unidos (relativamente falando). Quem ainda se ilude, esperando que não seja sempre assim, que na próxima vez será diferente, que pode ser... espera e espera.


© Gazeta do Povo