O feminismo justo
“O feminismo é um movimento para acabar com o sexismo, a exploração sexista e a opressão”. A definição é de bell hooks* e encontramo-la na estrutura de uma das bíblias da contemporaneidade: "Teoria Feminista: Da Margem ao Centro", publicado pela primeira vez em 1984.
Na altura, a visionária bell hooks (nascida Gloria Jean Watkins, 1952) autora, professora, teórica feminista, artista e ativista norte-americana desejava que esta fosse a definição geral que se tornasse comum entre nós e por um simples motivo: os homens não seriam, necessariamente, “o inimigo”. Ao nomear o sexismo como o problema, independentemente do género da pessoa que o perpetuava, isto seria suficiente para compreender a questão, com intuito à sua reparação.
Numa sociedade onde o sexismo sistémico institucionalizado em que vivemos compreende um sistema estrutural de dominação masculina, que subordina as mulheres e alimenta as desigualdades de género por meio de instituições sociais, económicas, políticas e culturais, esta definição ajudar-nos-ia a explorar o cerne da discriminação: não se discutiriam apenas comportamentos individuais, mas uma organização social onde o masculino é a norma e o feminino é inferiorizado.
Estamos em 2026 e a realidade continua a doer como lâminas. Celebramos mais um Dia Internacional da Mulher em que este continua a ser um problema perpetuado. "O Boletim Estatístico 2025: Igualdade de Género em Portugal", editado pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, continua a sublinhar as desigualdades estruturais de hoje e a exigir respostas públicas concretas. Os casos mais chocantes (e que continuam a fazer engolir em seco) prendem-se com os números de violência de género e que afetam desproporcionalmente as mulheres. Cerca de 30,7% das mulheres na União Europeia reportaram ter sido vítimas de violência física e/ou sexual ao longo da vida e quase 20% das mulheres indicam ter sofrido este tipo de violência desde os 15 anos.
Não é novidade que as culturas de dominação atacam a autoestima, substituindo-a pela noção de que a individualidade vive do controlo sobre o outro. De facto, a masculinidade patriarcal ensina que o sentido de identidade reside na capacidade de dominar os outros: as mulheres, os mais vulneráveis, as crianças. Mas, como diria Carl Jung, onde o desejo de poder é primordial, o amor está ausente. E se o amor está ausente, o que podemos esperar?
É por isso que, em 2026, ainda importa recordar que o feminismo é para todos.
O feminismo justo é para todos. Consciente, intencional, interseccional, de revolução. De reconstrução. E para compreender o feminismo, é necessário compreender o sexismo em todas as suas vertentes. bell hooks diz-nos que “o amor é o que amor faz”. Que seja, portanto, verdade, para que se faça justiça.
*bell hooks adotou um pseudónimo (que recuperou do nome da bisavó) em letras minúsculas enquanto posicionamento político e poético. A intenção visa descentralizar o ego e a personalidade da autora, reforçando a obra e o conteúdo das suas ideias.
