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O bloqueio é este

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03.03.2026

A teoria é de Luís Montenegro: existem hoje três blocos na política portuguesa. O da esquerda, onde engloba tudo o que está à esquerda da AD; o do centro que governa, onde estará a AD; e o do Chega, solitário, encostado ao seu canto.

A teoria colhe adeptos. E, observando o Parlamento, a olho nu não é descabida; tem sentido. Por vicissitudes da história recente, comprova até que Paulo Portas estava errado em 2015. Após a formação da Geringonça, terá dito: a Direita só voltará ao poder com maioria absoluta. A realidade impôs-se à previsão.

Com a decadência da marca PS, o PSD emergiu da sombra. Montenegro, de quem poucos esperavam um Primeiro-Ministro, tornou-se isso mesmo. E, contrariando a tese de Portas, chefe de um governo minoritário. Colocando as fichas numa carta: comunicação.

Para muitos que se debruçaram sobre os bons e os podres dos anos da Troika, o problema foi de narrativa. Acontece que anunciar cortes de salários e pensões deverá colocar desafios aos mais astutos spin doctors. Comunicou-se mal, porque o que se anunciava era o abismo do dia seguinte.

Formou-se, no entanto, essa convicção nas hostes do PSD: o PS resistia e governava, quase por defeito, porque tinha boa propaganda. O PSD, encarando-se como um benjamim nessa prática, ficava a léguas dessa habilidade. Habilidade que se tornou capital na cabeça da direção do PSD que sucedeu a Rui Rio. A preocupação era a de comunicar bem, depois de vencer eleições.

Vencendo, começou a correção. Com o PSD de volta ao governo, havia agora de se discursar com eficácia. Mensagem primeira: o governo vem para fazer as pazes. Após o martírio dos anos da Troika, chegaria agora o PSD que governa em normalidade. Normalidade: governar de forma indistinta do PS em diversas áreas. Na visão sobre a administração pública, sobre o salário mínimo, sobre a mudança.

Montenegro tornara-se uma figura incremental que, à imagem do costismo, mudava com cuidado e de forma indolor. “Mudança Segura” foi o mote da sua última semana de campanha antes de ganhar pela primeira vez. Não seria muito diferente na segunda campanha, um ano depois.

Não subestimo Montenegro e não aconselharia ninguém a fazê-lo. A sua resistência política é elevada, à semelhança da que António Costa teve. Pode ir definhando, ao longo da legislatura, como tudo indica. Pode também aguentar-se na posição de inércia e vir a ser, mais uma vez, alvo da preferência dos que procuram “o menos mau”.

O eleitorado português é, no essencial, conservador – Montenegro sabe-o e é aí que coloca as fichas da sua ação. Vê o eleitorado, em geral, com um temperamento fleumático e pouco dado a aventuras. A História dá-lhe um bom grau de razão. Mas o país vai mudando. O tempo da inércia está contado.

Perante um aparente bloqueio e sensação de rame-rame, o país pode vir a enjoar ao dar-se conta de duas velocidades: a da governação e a da comunicação. A primeira é lenta, não se vislumbrando mudanças de renome na vida em geral; a segunda é frenética e fulgurante, querendo ultrapassar a primeira.

Antes da Grande Depressão americana, Edward Bernays, pai das Relações Públicas, escreveu no seu clássico Propaganda (1928): “Agora, a ‘opinião pública’ destacava-se como uma força que precisava de ser administrada”. Nada que a realidade desminta com frontalidade. Mas a atualidade vem demonstrando que os governos recentes da República cunharam demasiado a moeda da gestão da opinião pública – desmerecendo a da rotura com as deficiências do Estado.

Tanto que a gestão da opinião pública se vai complicando. O dia-a-dia não se ultrapassa – como quem diz o preço do cabaz essencial, o da habitação, o do bilhete para o teatro em família, quando sobra dinheiro e vontade.

O bloqueio é este.


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