O que fazer com a gestão das bacias hidrográficas?
A recente decisão de criar um grupo de trabalho para analisar as cheias de 2026 na bacia do Mondego — incluindo a rotura de um dique e o colapso da A1 — merece atenção. A equipa integra, quase exclusivamente, especialistas em engenharia hidráulica, sanitária e geotecnia, o que garante competência técnica numa área decisiva: compreender o comportamento hidráulico do sistema fluvial face a episódios extremos.
Mas essa é apenas uma parte da história.
Entre 2001 e 2017 foram produzidos cinco relatórios técnicos, quase todos centrados na dimensão hidráulica e geralmente motivados por grandes cheias. Apesar disso, nas últimas duas décadas e meia registaram-se pelo menos três episódios com caudais próximos dos 2000 m³/s (metros cúbico por segundo) em Coimbra - um valor que, segundo o próprio projeto do Baixo Mondego, corresponde ao limite extremo de segurança de uma infraestrutura altamente onerosa. Mais ainda: esse mesmo projeto previa que tal caudal ocorreria apenas uma vez em mil anos.
Perante estes dados, a pergunta impõe-se: faz sentido continuar a produzir relatórios semelhantes ou é tempo de mudar o enquadramento da análise?
Uma bacia hidrográfica não é apenas um problema de engenharia. É um sistema complexo, onde interagem processos naturais, usos do solo, dinâmicas económicas e decisões políticas. Pensá-la apenas do ponto de vista hidráulico é reduzir a realidade a uma dimensão insuficiente — e, por isso, arriscada.
Uma gestão verdadeiramente sustentável exige integração. Geólogos que compreendem a dinâmica sedimentar dos rios, geógrafos que analisam a evolução da paisagem, biólogos que estudam ecossistemas fluviais, especialistas em restauro ambiental, engenheiros agrícolas e florestais, urbanistas e arquitetos paisagistas: todos têm um papel a desempenhar. E não menos importante, as autarquias e as populações locais, que vivem com as consequências das decisões tomadas.
Há, aliás, um consenso técnico alargado sobre um ponto essencial: as planícies de inundação devem ser reservadas para usos compatíveis com a dinâmica natural dos rios — agricultura, conservação ecológica, lazer. Não para construção. No entanto, continua a verificar-se, em muitos casos, uma ocupação edificada destas áreas, frequentemente tolerada ou mal regulada, que agrava a exposição ao risco de inundação.
Este é um problema estrutural. E ignorá-lo é perpetuar vulnerabilidades.
A chamada Gestão Integrada de Recursos Hídricos aponta precisamente no sentido contrário: menos respostas reativas após cada cheia, mais planeamento estratégico; menos compartimentação disciplinar, mais articulação de saberes; menos curto prazo, mais prevenção. Exige também algo mais difícil — vontade política para corrigir erros persistentes no ordenamento do território.
A Europa tem vindo a reforçar este caminho, promovendo soluções baseadas na natureza, o restauro de rios e a adaptação aos eventos meteorológicos extremos e à variabilidade climática. Portugal não pode ficar à margem dessa evolução. No caso do Mondego, bem como de outras bacias, uma abordagem verdadeiramente integrada não só reforçaria a base científica das decisões, como também elevaria a qualidade do debate público. E isso é tão importante quanto qualquer relatório técnico.
Se queremos reduzir riscos futuros, não basta estudar o que aconteceu. É preciso mudar a forma como pensamos o território.
A proposta é simples: criar um grupo interdisciplinar permanente, integrar efetivamente o conhecimento científico na decisão política e rever, com rigor, a ocupação das planícies de inundação. Tudo o resto será, provavelmente, repetir diagnósticos - à espera da próxima grande cheia.
