menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Inteligência artificial na Gastrenterologia: liderar é obrigatório

17 0
09.03.2026

A Inteligência Artificial deixou de ser uma tendência. Na Gastrenterologia, é já um determinante de qualidade, segurança e eficiência. A questão não é se a IA vai entrar na prática clínica. Já entrou. A única questão relevante é se a sua integração será liderada por médicos, com rigor científico e responsabilidade ética, ou imposta por lógicas externas ao doente e ao ato clínico.

A nossa especialidade vive da imagem e, por isso, vive também das limitações do olhar humano. Sinais discretos, decisões rápidas, variabilidade entre operadores e fadiga. A IA atua exatamente onde o erro é previsível e onde as consequências são reais: reduz omissões, aumenta consistência e torna o processo diagnóstico mais fiável, sem retirar o médico do centro.

A endoscopia por cápsula é o exemplo mais evidente e incontornável. Um exame gera dezenas de milhares de imagens e impõe horas de revisão. Isso não é “ineficiência”. É um risco estrutural. A IA altera o paradigma de forma mensurável: cria resumos automáticos, destaca os segundos relevantes e conduz a revisão para achados críticos como sangue, angiectasias, erosões, úlceras ou lesões protrusas.

Em tarefas específicas de deteção, este apoio pode elevar o desempenho de patamares na ordem dos 60 por cento para mais de 97 por cento, com redução drástica do tempo de leitura. A consequência é direta: menos falhas, mais segurança e decisões mais rápidas.

A mesma lógica aplica-se à colonoscopia e a outras técnicas endoscópicas. O apoio em tempo real funciona como uma camada adicional de vigilância, especialmente em lesões pequenas ou de baixo contraste, reduzindo falhas de atenção inevitáveis e diminuindo variabilidade entre operadores. Não substitui experiência. Eleva o padrão mínimo e torna a qualidade mais reprodutível.

O próximo passo é ainda mais relevante: a Inteligência Artificial como infraestrutura de qualidade. Priorizar exames por risco, padronizar relatórios, auditar desempenho, reduzir ruído informacional e libertar tempo clínico. O impacto não é apenas técnico. É organizacional e assistencial. Numa medicina pressionada por volume e escassez de tempo, ganhar minutos por exame significa ganhar horas para decisão, comunicação e seguimento. A IA, quando bem integrada, não desumaniza. Reorganiza o trabalho para devolver tempo ao essencial.

Mas há uma condição inegociável. A adoção tem de ser conduzida com rigor: validação clínica robusta, transparência metodológica, governança ética e regulação proporcional ao risco. Sem estes pilares, não há confiança e não há legitimidade. Com estes pilares, a IA torna-se uma extensão responsável do ato médico.

Isto não é um tema reservado a engenheiros ou departamentos de inovação. É um tema de liderança clínica e soberania científica. Neutralidade, neste contexto, não é prudência. É abdicação. Se os médicos não definirem standards, outros irão defini-los, e o resultado pode não servir o doente nem proteger a qualidade.

A conclusão é simples. A Gastrenterologia pode liderar esta transição e estabelecer padrões de prática mais seguros e eficientes. Ou pode ficar a reagir, tarde, a decisões tomadas por terceiros.

Liderar não é opcional. É obrigatório.


© Expresso