Não há segurança britânica sem a Europa, nem segurança europeia sem o Reino Unido
Ao assinalarmos quatro anos desde a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, refletimos sobre o sofrimento imensurável que a guerra trouxe ao povo ucraniano. Civis inocentes enfrentaram o inverno mais brutal da última década, enquanto a Rússia continuou, e continua, de forma deliberada e cruel, a atacar infraestruturas civis críticas.
Apesar dos ataques constantes, a determinação e a coragem do povo ucraniano prevalecem. As crianças continuam a ir à escola, apesar dos alertas aéreos noturnos e do sono interrompido. Os serviços de emergência continuam a apagar incêndios e a resgatar aqueles que ficam presos nos escombros após os ataques russos. A Ucrânia luta pela paz.
Para muitos, no Reino Unido e em toda a Europa, esta guerra parecia, em tempos, profundamente preocupante, mas distante. Essa complacência desapareceu. A Rússia destruiu a paz que até então tomávamos como garantida e pôs em causa a segurança global. A guerra expôs também uma estratégia russa mais ampla,destinada a enfraquecer a segurança e a coesão social da Europa: desinformação para dividir as nossas sociedades, ciberataques e sabotagem para destabilizar a vida quotidiana, e interferência política que corrói a confiança.
À medida que a guerra continua, Moscovo está a rearmar-se e a reconstruir a sua capacidade industrial.
A Europa enfrenta um ponto de viragem estratégica. A paz já não pode ser dada como garantida; tem de ser assegurada através da unidade, de uma dissuasão credível e de uma cooperação mais profunda em matéria de defesa, indústria, tecnologia e economia.A Europa não procura conflito. O nosso objetivo é uma paz duradoura, o regresso à estabilidade estratégica e à defesa das regras que protegem todas as nações, grandes e pequenas. A dissuasão funciona quando é credível. Isso exige poder, resiliência e vontade política.
Como o nosso primeiro-ministro afirmou na Conferência de Segurança de Munique que, enquanto Europa, devemos apoiar-nos nos nossos próprios pés. E isso significa ser audaz. Significa agir em conjunto para construir uma Europa mais forte e uma NATO mais europeia, sustentada por laços mais profundos entre o Reino Unido e a União Europeia - na defesa, na indústria, na tecnologia, na política e na economia. Porque são estes os alicerces da nossa segurança e prosperidade.
Não há segurança britânica sem a Europa, nem segurança europeia sem o Reino Unido. Essa é a lição da história e a realidade atual. A Aliança Atlântica continua a ser o escudo que nos protege. Os Estados Unidos são indispensáveis e a nossa gratidão é genuína. Contudo, a Europa deve assumir uma responsabilidade acrescida dentro da NATO, assegurando investimento geracional, reforçando a partilha de encargos e garantindo que as capacidades europeias valem mais do que a soma das partes. Isto é renovação, não rutura.
A fragmentação industrial europeia deixou lacunas em algumas áreas e duplicações dispendiosas noutras. A Europa possui mais de 20 tipos de fragatas e dez tipos de aviões de combate. Temos mais de dez tipos de carros de combate, enquanto os EUA possuem apenas um. É ineficiente. À medida que aumentamos o investimento, devemos integrar e agregar as nossas capacidades, construindo uma indústria de defesa europeia coesa para reforçar a nossa segurança coletiva.
Devemos consolidar a procura, normalizá-la sempre que possível e aumentar a produção,desde mísseis de longo alcance a munições, drones e proteção de infraestruturas submarinas. Da região do Ártico ao Báltico e ao Atlântico Norte, devemos reforçar a proteção marítima, a guerra anti-submarina e a segurança das infraestruturas críticas no fundo do mar.
A dissuasão não é um slogan; é uma postura que deve ser mantida todos os dias.O Reino Unido está a analisar de que outras formas pode atuar em conjunto com a União Europeia. Empresas britânicas representam mais de um quarto da base industrial de defesa do continente. Assim, as nossas empresas continuarão a ser uma parte vital das cadeias de abastecimento da defesa europeia.
Importa reforçar esta cooperação prática na indústria de defesa, na tecnologia e na economia, para construir uma base industrial partilhada no nosso continente, capaz de acelerar a produção e a vantagem tecnológica no setor da defesa.
O Reino Unido e Portugal partilham um passado de prestígio. A mais antiga aliança de segurança ainda em vigor, entre dois membros fundadores da NATO, com uma responsabilidade partilhada na defesa do Atlântico. Ambos têm apoiado a Ucrânia desde o primeiro dia. Trabalhamos em conjunto, através de parcerias e cooperação industrial, para produzir resultados decisivos.
O grande investimento do unicórnio português Tekever no Reino Unido está a permitir o aprofundamento de uma parceria moderna e estratégica entre os Estados português e britânico que, através do Fundo Internacional para a Ucrânia, está a fornecer capacidades essenciais ao país.
Quatro anos após a invasão em grande escala da Ucrânia, a lição é clara: a paz na Europa não se sustenta sozinha. É sustentada por nós. Isto implica que sejamos honestos uns com os outros quanto à escala de investimento e ao nível de prontidão necessários. A nossa determinação assenta em valores comuns: soberania, democracia, liberdade e Estado de Direito.
Apoiar a Ucrânia é um compromisso com esses valores. A unidade é a nossa vantagem assimétrica. Devemos utilizá-la. Ao investir em poder militar, acelerar a cooperação industrial e aprofundar as parcerias, não só por todo o nosso continente, mas também dentro da aliança transatlântica, devemos dissuadir a agressão e assegurar uma paz justa.
Escolhamos a determinação em vez da deriva, a unidade em vez da divisão e a paciência estratégica em vez das ilusões. É assim que honramos a coragem da Ucrânia e salvaguardamos o nosso próprio futuro.
