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O "não" que ninguém ouviu

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Vi. Ouvi. Rebobinei. Voltei atrás, a pensar que tinha percebido mal. Não tinha. Tinha percebido demasiado bem.

A frase tinha sido dita na televisão do país. À hora do almoço. Sobre uma menor violada.

“Mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve?”

A autora? Cristina Ferreira. No Dois às 10, da TVI.

E a pergunta que devolvo é só uma. E se fosse a sua filha?

Quando quatro homens forçam uma rapariga, não há adrenalina que os iliba. Há crime. Há vítima. Há dor. O não que ela disse valeu tanto no primeiro segundo como no último.

Cristina Ferreira não fala ao balcão do café. Tem milhões de seguidores. Tem filhas e filhos que crescem em ecrãs onde ela é autoridade. O dano multiplica-se.

A adrenalina não desculpa

Quando uma estrela de televisão sugere que quatro homens em grupo podem não ouvir um não, oferece uma desculpa a cada agressor escondido atrás da química do momento.

Ensina ao rapaz de quinze anos que está no sofá, ao lado da namorada de catorze, que a excitação atenua a responsabilidade. E ensina-lhe, a ela, que o problema é dela.

Mas o que fica é a primeira frase. A que saiu sem filtro. A que disse o que se pensa quando o guião ainda não chegou. Nenhuma entrevista apaga isso.

Terça, no Jornal Nacional, voltou ao tema. Disse, “não é não, ponto”. Defendeu que foi pergunta, não comentário. Perguntada se era um pedido de desculpas, respondeu que não. Era um lamento.

A diferença não é semântica. Lamentar é virar-se para dentro. Pedir desculpa é virar-se para o outro. Os pais da menor estão entre as 4.200 queixas à ERC. Exigem o segundo.

Os números estão no RASI e são uma sentença. Onze violações por semana. O maior número em trinta e dois anos. Uma mulher morta cada duas semanas. Três mil agressores entre os dezasseis e os vinte e quatro anos. E, em 2026, ainda discutimos se o não precisa de testemunhas.

A manosfera entrou na sala

O macho ibérico voltou. Trouxe companhia digital. Podcasts que ensinam rapazes a dominar raparigas. Influencers que falam de mulheres como mercadoria. Uma geração que consome, em silêncio, uma ideologia que naturaliza a agressão.

Os acusados são influencers.

Construíram audiências, venderam imagem. Depois juntaram-se para, alegadamente, violar uma rapariga de 16 anos e filmar. A acusação inclui vinte e sete crimes de pornografia de menores agravados. A manosfera não é uma teoria. É isto.

Os estudos confirmam o que os casos mostram. Os jovens homens portugueses tornam-se mais conservadores do que as jovens. O fosso entre géneros aumenta. E nesse fosso cabe tudo.

A violação em grupo. A partilha de imagens. O ódio online contra quem denuncia. Uma geração de jovens deslaçados, sem referência, sem freio.

Ameaçar de morte também é crime

Aqui é preciso parar. Nada justifica as ameaças de morte à apresentadora. A crítica pública faz-se com argumentos. Não com apelos à forca.

A patologia é a mesma da kiss cam dos Coldplay. Saíram os dois da empresa. Ela recebeu ameaças de morte. Ele, piadas. Ela viu a morada ir parar à rua. Ele, memes. Contou a história à Oprah para, finalmente, olharmos. Ele nunca precisou de contar nada.

Mesmo quando a mulher erra, o castigo social é diferente. Mais violento. Mais duradouro. Não é acidente. É estrutura.

O que está em causa

O Estado de direito não protege só quem concorda connosco. Protege quem erra em direto. Protege Cristina Ferreira das ameaças. E protege a rapariga do silêncio em que muitos a querem manter.

E há uma ausência que grita. Ninguém fala da vítima. Tem dezasseis anos. Foi filmada. Foi exposta. Foi, alegadamente, violada. Chumbou o ano. Os arguidos andaram em liberdade até ao julgamento.

Ontem, no Jornal Nacional, Cristina Ferreira disse que a pergunta era “para perceber o comportamento do violador”. Pronto. Está dito. Pensava no violador. Não na rapariga.

Toda a gente pensou.

Isto é justo?

Falamos dos arguidos.

Falamos de quem comentou.

A vítima desapareceu da conversa no momento em que mais precisava de estar nela.

Não desviemos os olhos do essencial.

Há uma geração a aprender, em ecrãs e estúdios, que o não é uma sugestão. E está a aprender depressa.

Volto ao início.

E se fosse a sua filha?

Ouviriam o seu não?

Não ouvem. Não estão a ouvir.

Pense nisso logo à noite, quando a beijar na testa antes de dormir.


© Expresso