menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Portugal tem de vender muitos pastéis de nata para comprar comboios

7 0
previous day

Há frases que ficam. Não pela sua profundidade, mas pela clareza com que revelam o pensamento de quem as diz. "Portugal tem de vender muitos pastéis de nata para poder comprar comboios" é uma dessas frases. Proferida por um líder sindical no âmbito das negociações de concertação social, tornou-se, involuntariamente, a melhor síntese do problema estrutural português: a confusão sistemática entre quantidade e valor.

Não se trata de uma boutade. Trata-se de uma visão do mundo. E é essa visão que, há décadas, nos impede de ter uma conversa séria sobre o que significa criar riqueza.

O pastel de nata e o problema que ele não é

Comecemos pelo básico que, em Portugal, raramente é básico o suficiente para entrar no debate público.

Valor acrescentado não é o mesmo que volume de vendas. Uma empresa que vende mil pastéis a um euro cria menos riqueza por trabalhador do que uma empresa que vende um componente aeronáutico a mil euros. Não porque o pastel seja menos digno - é delicioso, é uma obra de engenharia gastronómica, e quem o faz merece respeito. Mas porque a margem, a qualificação envolvida, o investimento em I&D, e o retorno por hora trabalhada são estruturalmente diferentes.

É exactamente isso que os economistas chamam produtividade. E é exactamente aí que Portugal tem um problema grave, documentado, recorrente, e sistematicamente ignorado no debate político.

Segundo dados da Pordata referentes a 2024, cada trabalhador português contribuiu com cerca de 47.700 euros para o PIB. Na Irlanda, um país com uma área e população comparáveis, esse valor é de 194.400 euros (mesmo considerando efeitos estatísticos conhecidos e descontando as suas distorções contabilísticas). Ou seja, um trabalhador irlandês gera, em média, quatro vezes mais riqueza do que um trabalhador português. Não porque trabalhe quatro vezes mais horas. Mas porque trabalha em sectores de maior valor, com mais tecnologia, mais capital, e em empresas com mais escala.

A Comissão Europeia, no seu relatório de acompanhamento de 2025, é directa: “Apesar de algumas melhorias, em 2023 os níveis de produtividade laboral de Portugal eram ainda apenas 80,5% da média da União Europeia.” E o Eurostat não é um blog de opinião, é a agência oficial de estatísticas da União Europeia.

O problema, porém, não é apenas de produtividade. É de narrativa. Portugal continua a ter uma conversa pública sobre economia que confunde actividade com eficiência, emprego com riqueza, e proteção com progresso. E quando um líder sindical diz que temos de vender mais pastéis, está, sem se aperceber, a confirmar exactamente o que nos condena à cauda europeia.

O país das micro-empresas: grandes em número, pequenas em tudo o resto

Há um número que devia constar de todos os debates da Assembleia da República, ser projetado nas paredes do Ministério da Economia, e tatuado, metaforicamente, na testa de quem faz política económica, financeira e industrial em Portugal: 96%.

É a percentagem de empresas portuguesas que são microempresas, com menos de 10 trabalhadores. Segundo dados da Pordata, em 2022 existiam em Portugal 1.396.335 microempresas num universo de 1.452.225 PME activas. Apenas 8.142 eram médias empresas. E as grandes? Uma raridade estatística.

Isto não é um detalhe. É a espinha dorsal, ou a ausência dela, da economia portuguesa. Uma microempresa não tem massa crítica para investir em tecnologia, contratar um director de I&D, participar em consórcios europeus, ou exportar para mercados exigentes. Pode ser extraordinariamente eficiente no que faz, mas está estruturalmente impedida de escalar.

Compare-se com a Alemanha, sim, sempre a Alemanha, porque é o espelho mais incómodo que existe. O Mittelstand alemão, esse conjunto de empresas médias e familiares de nicho industrial, é responsável por mais de metade das exportações alemãs e emprega mais de 60% dos trabalhadores do sector privado. Não são start-ups........

© Expresso