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Quem quer guerra com o Irão?

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26.03.2026

Há guerras inevitáveis e há guerras escolhidas. A distinção, embora nem sempre evidente no momento em que os acontecimentos se precipitam, torna-se mais clara à medida que o custo humano, político e económico se acumula. A atual escalada entre os Estados Unidos e o Irão parece, aos olhos de uma parte significativa da opinião pública americana, pertencer à segunda categoria.

Uma sondagem recente da CBS News é particularmente reveladora: 66% dos americanos considera este conflito uma guerra de opção, isto é, uma decisão política, e não uma necessidade estratégica incontornável. Mais ainda, 68% admite nunca ter compreendido com clareza quais os objetivos da investida americana. Estes números não são meros indicadores de desgaste, mas antes sinais de um défice de legitimidade que, em democracia, tende a cobrar o seu preço.

A decisão de avançar para um confronto direto com o Irão levanta, desde o início, dúvidas quanto à sua racionalidade estratégica. O Irão não é um adversário trivial: é um ator regional com capacidade de projeção assimétrica, redes de influência consolidadas e uma resiliência histórica que desaconselha aventuras precipitadas. Entrar num conflito com Teerão não é apenas abrir uma frente militar, mas é potencialmente desestabilizar toda uma região já marcada por equilíbrios frágeis.

Do ponto de vista económico, os riscos são igualmente evidentes. A simples perspetiva de uma guerra prolongada no Golfo Pérsico tem impacto direto nos mercados energéticos, pressionando os preços do petróleo e alavancando a inflação a nível global. Para uma economia americana que já enfrenta desafios internos, este tipo de choque externo pode traduzir-se em custos políticos imediatos. Nenhuma administração é imune ao efeito que o preço da energia tem no quotidiano dos eleitores.

É precisamente aqui que a dimensão eleitoral entra em jogo. Com eleições intercalares no horizonte, a continuidade de um conflito impopular e mal explicado pode transformar-se num fardo difícil de suportar. A história recente dos Estados Unidos demonstra que guerras percecionadas como desnecessárias tendem a corroer o apoio político, sobretudo quando os resultados no terreno são ambíguos ou inexistentes.

Paralelamente, importa olhar para o papel de Israel neste contexto. A dinâmica entre Washington e Telavive tem sido, ao longo das últimas décadas, uma constante da política externa americana, mas o momento atual apresenta características particulares. Para o governo israelita, a manutenção de um ambiente de conflito pode servir propósitos internos muito claros. A sobrevivência política de uma liderança pressionada depende, em larga medida, da capacidade de manter uma narrativa de ameaça permanente.

Neste quadro, a guerra com o Irão surge como uma extensão lógica dessa estratégia. Ao incentivar os Estados Unidos a manterem-se envolvidos, Israel evita o isolamento num confronto que considera existencial. Mais do que isso, beneficia de um alinhamento político em Washington que lhe é particularmente favorável: um interlocutor disposto a agir de forma impulsiva, pouco condicionado por cálculos de longo prazo e sensível a pressões externas.

Esta combinação cria uma situação de risco acrescido. Quando decisões de política externa são tomadas em função de impulsos momentâneos ou de dinâmicas políticas internas, quer nos Estados Unidos, quer em Israel, o espaço para erros de cálculo aumenta significativamente. E, como demonstra a História, os erros de cálculo em contextos de conflito raramente têm consequências limitadas.

Os sinais recentes de uma possível pausa de cinco dias nas hostilidades podem ser interpretados como um reconhecimento tácito destas dificuldades. Mais do que um gesto de descompressão, essa proposta sugere uma certa urgência em encontrar uma saída que permita conter os danos sem assumir explicitamente um recuo. A confusão em torno de alegadas negociações com o Irão reforça essa leitura. Se, por um lado, Washington sugere abertura diplomática, por outro, Teerão nega qualquer iniciativa nesse sentido, e fá-lo num momento em que o regime aparenta estar ainda mais radicalizado.

Esta ambiguidade pode não ser acidental. Criar a perceção de que houve tentativas de diálogo, mesmo que infrutíferas, oferece uma via de saída politicamente aceitável. Permite argumentar que a diplomacia foi explorada, transferindo a responsabilidade pelo fracasso para o outro lado. É uma estratégia clássica, mas nem sempre eficaz, sobretudo quando a opinião pública já se mostra cética quanto às motivações iniciais do conflito.

A questão central é: quem quer verdadeiramente esta guerra? Certamente não a maioria dos americanos, que demonstram reservas claras. Não é evidente que seja do interesse estratégico de longo prazo dos Estados Unidos, dados os riscos envolvidos. Para Israel, porém, a resposta pode ser diferente, não por uma preferência pela guerra em si, mas pela utilidade política e estratégica que a sua continuação pode representar.

Perante este cenário, a prudência aconselharia uma reavaliação séria dos objetivos e dos custos. Persistir num conflito sem apoio interno sólido, sem objetivos claramente definidos e com impactos económicos negativos previsíveis não parece uma estratégia sustentável. A História tende a ser pouco indulgente com guerras que não sabem explicar por que começaram e ainda menos com aquelas que não sabem como acabar.


© Expresso