Os tabus da esquerda deprimida
Isto vem a propósito do livro “Autoajuda para uma esquerda deprimida”, de Manuel Afonso, que acabei de ler. Publicado pela Zigurate, o livro traz uma abordagem original: em vez de apontar caminhos, aponta erros; e a partir da assunção dos erros talvez se encontre um caminho. É, sobretudo, uma perspectiva honesta: não há ali um intento de salvar a pele, de clamar vitória, de maquilhar a vida, de ter razão. Debruçando-se sobre cerca de vinte anos de militância em partidos políticos, vemos ainda a diferença entre um adulto, de barba a puxar já para o grisalho, e um jovem cheio de futuro e de certezas. Ora, a diferença entre ter dúvidas e ter certezas é o rigor que vem depois.
E rigor é o caminho. Entre outras coisas, o livro pega na utilização discursiva das noites eleitorais e nas dissonâncias entre a festa da derrota e a mágoa dos resultados. Vemos isso com o PCP desde que nasceu. Aliás, ainda me lembro, em Março de 2024, depois da primeira vitória de Montenegro e de um decréscimo considerável dos partidos de esquerda na AR, de Miguel Tiago, ex-deputado do PCP, ter tido o desplante de escrever no Twitter: “O maior derrotado da noite: o poder económico que apostou todas as fichas em liquidar eleitoralmente a CDU e não conseguiu.” O poder económico feliz da vida com os 28,8% da AD, os 18,1% do Chega e os 5% da Iniciativa Liberal, mas a CDU clamava vitória, com uma festa que só existia na sua cabeça: lixados estavam os outros por não terem limpado cinco deputados do Parlamento, apesar de estes não estarem em posição de fazer nada. Isto nem inventado e não pode ser levado a sério. Será mais ou menos o mesmo que eu dizer que o Hafþór Júlíus Björnsson anda a esfregar as mãos de contente por eu ter tido mais uma amigdalite esta semana e não ter ido ao ginásio – só assim se justifica, claro, que eu não o destrone no halterofilismo.
Mas voltemos a Manuel Afonso. O livro tem vários pontos de interesse, que não cabem aqui. Escolho um, que o autor aborda, e acrescentarei mais........
