O Brasil não precisa de mais médicos. Precisa de médicos melhores
Em 2023, escrevi neste mesmo espaço que o Brasil não precisava de mais cursos de Medicina: precisava de melhores cursos, melhores condições de formação e políticas públicas capazes de enfrentar a verdadeira distorção da assistência médica no país: a péssima distribuição dos profissionais.
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Naquela época, a crítica poderia parecer exagerada para alguns. Três anos depois, infelizmente, os números começaram a responder por mim. O primeiro resultado do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) apontou desempenho insatisfatório em 99 cursos de Medicina.
Talvez tenha chegado a hora, portanto, de fazer algo revolucionário no Brasil: antes de abrir novas faculdades de Medicina, verificar se as que já existem estão, de fato, conseguindo formar bons médicos. É exatamente isso que propõe o Projeto de Lei nº 1.165/2026, em análise na Câmara dos Deputados. De autoria do deputado federal e médico Dr. Luiz Ovando, o texto suspende, por cinco anos, a abertura de novos cursos privados de Medicina e a ampliação de vagas nos cursos já existentes.
Durante décadas, o Brasil tratou a expansão do ensino médico como se quantidade fosse sinônimo de política pública. Faltam médicos em determinada região? Abre-se uma faculdade. A população cresceu? Abre-se outra. Um “grupo educacional” encontrou uma cidade economicamente interessante? Coincidentemente, descobre-se ali uma suposta “demanda social” por mais um curso de Medicina. E assim fomos construindo uma das maiores redes de escolas médicas do mundo. O raciocínio sempre foi sedutor, porque é simples. E políticas públicas ruins adoram soluções simples para problemas complexos.
O problema é que uma faculdade de Medicina não é uma fábrica de diplomas (ou pelo menos, não deveria ser). Não basta uma sala de aula, um projetor, alguns professores e uma placa bonita na entrada. Formar médicos exige hospital, ambulatório, pacientes, professores qualificados, preceptores, laboratórios, estrutura de simulação, campos de prática e, principalmente, exposição clínica real, progressiva e supervisionada. Ou seja: não se improvisa um curso de Medicina. Mas no Brasil, nós improvisamos.
Em 2023, quando escrevi sobre o tema, o Brasil possuía 389 cursos de Medicina, com 42,9% tendo sido abertos apenas nos dez anos anteriores. Já........
