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Quando o corpo também lembra aquilo que a cidade tentou apagar

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28.05.2026

Tem um momento da vida em que a cidade deixa de ser endereço e vira cicatriz.

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A gente aprende isso cedo quando nasce em territórios que o poder público só visita em época de eleição, tragédia ou operação policial. Crescer na periferia é desenvolver uma espécie de cartografia íntima do abandono: saber onde o ônibus não passa, onde o asfalto termina, onde a enchente chega primeiro, onde o CEP parece valer menos. 

Justamente por isso que assistir “REAL”, da artista Cristina Santos provoca uma sensação tão difícil de explicar. Não é simplesmente um espetáculo de dança contemporânea, mas  quase como assistir alguém reorganizar os escombros da própria existência diante dos nossos olhos. 

Inspirado nas vivências da artista no Real Parque, comunidade da zona sul de São Paulo marcada por processos violentos de urbanização e remoção, o espetáculo transforma a memória em linguagem física, política e emocional. E isso importa muito. Porque existe uma diferença brutal entre falar sobre a periferia e falar dela. O corpo da Cristina não interpreta um tema social para consumo cultural de classe média progressista; ele carrega marcas concretas de um território que historicamente foi tratado como algo a ser corrigido, escondido ou apagado.

Enquanto muita arte brasileira ainda insiste em olhar corpos dissidentes como objeto de análise, “REAL” desloca esse eixo e faz outra coisa: coloca uma mulher negra, periférica, criadora da própria narrativa, ocupando o centro da cena sem tradução, sem exotificação e sem pedir autorização estética para existir.

O espetáculo não trabalha a dissidência como identidade performática vazia, dessas que viram tendência acadêmica ou curadoria institucional. A dissidência em “REAL” aparece como condição de sobrevivência. Está no modo como o corpo tensiona o espaço. Na maneira como permanência e deslocamento convivem o tempo inteiro. Na relação entre peso e exaustão. Na repetição de movimentos que lembram trabalho, fuga, resistência, insistência. Existe algo profundamente brutal em perceber que determinados corpos passam a vida inteira negociando o........

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