O vilão
Há uma arte que praticamos com maestria desde que descemos das árvores e descobrimos que o polegar opositor serve não apenas para segurar ferramentas, mas também para apontar dedos: a arte de encontrar culpados. Somos detetives natos em busca do responsável pela nossa desgraça cotidiana — seja ela uma gripe banal, um governo desastroso ou um dedo do pé teimoso que insiste em encontrar quinas de móveis na escuridão.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Como infectologista, vivo estudando os vilões microscópicos que nos assolam. Bactérias, vírus, parasitas — toda uma galeria de personagens invisíveis que carregam nas costas a culpa de nossas febres, tosses e mal-estares. Um inimigo que não pode se defender em tribunal, que não tem advogado, que sequer sabe que existe. OPlasmodiumnão acorda pela manhã pensando: "Hojevou arruinar o dia de alguém com malária". Ele simplesmente é. Existe. Reproduz-se. Cumpre seu papel no grande teatro da evolução.
Mas nós precisamos de mais. Precisamos de narrativas, de vilões com rosto, de explicações que caibam em manchetes de jornal. Então transformamos microrganismos em personagens de uma novela — dramáticos, onipresentes, sempre tramando contra nossa felicidade. "Foi o vírus que me derrubou", dizemos. A verdade filosófica que nos escapa é mais perturbadora: o vírus não tem a menor ideia de quem somos. Para ele, somos apenas um ambiente favorável, um hotel cinco estrelas com buffet à vontade. Enquanto isso, nossa cobertura vacinal contra a COVID-19 permanece........
