Fantasia de carnaval
As recentes notícias sobre as demissões no jornal “The Washington Post” viajam o mundo. Um terço dos jornalistas demitidos, inclusive vários correspondentes internacionais. Seções inteiras eliminadas, como a de esportes e, do meu ponto de vista mais tragicamente, o caderno literário, “Book World”. A morte de um periódico de literatura sinaliza que o interesse por livros é considerado pouco relevante.
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Na segunda metade da década de 1990, trabalhei em Washington. Foi meu primeiro posto. Assim que alugamos casa e nos instalamos, fazer uma assinatura do “Washington Post” foi prioridade. Ao encontrá-lo na soleira da porta, de manhã, considerávamos não estar apenas recolhendo um jornal; participávamos de um pedaço da história dos Estados Unidos e, por conseguinte, do mundo.
Era impossível não lembrar que aquele jornal defendera a democracia e o direito das pessoas à informação. Em 1971, lutara para publicar os “Pentagon Papers” sobre a Guerra do Vietnã e contribuíra para a eclosão, em 1972, do escândalo de Watergate, que levaria dois anos depois à renúncia de Richard Nixon. Durante nosso tempo em Washington, esses eram fatos relativamente recentes, de pouco mais de vinte anos. Watergate era muito presente na mente de todos. Lembro de ir uma noite a um compromisso social, por causa do meu trabalho, e de um conhecido, americano, me apontar um convidado, no outro lado do salão, e sussurrar: “Ele esteve envolvido em Watergate”.
Naturalmente, era aos domingos que o jornal chegava mais polpudo. Nesse dia, vinham inúmeros cadernos.........
