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Marcelo despediu-se (?) em Braga

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Ontem, Braga engalanou-se para dizer Adeus ao protagonista de Belém na última década. Carismático quanto baste, Marcelo Rebelo de Sousa despede-se (?) como ele gosta: com pompa e circunstância. Não ouvi o seu discurso, que foi feito horas depois desta crónica ter sido escrita. Seja como for, o balanço que tem de ser feito agora não lhe cabe a ele, mas a nós, cidadãos, face a uma presidência que foi tudo menos pacífica, polémica quanto baste, onde coabitação e interpretação dos poderes da presidência deram lugar a momentos de tensão e perplexidade. Desde o Marcelo dos afetos, ao Marcelo comentador da manhã, da tarde e da noite, os portugueses habituaram-se a ouvi-lo a falar de tudo e sobre tudo, como se para tudo, o Presidente da República tivesse a obrigação de ter uma resposta, uma satisfação. Certamente não tinha. Tinha era necessidade quase viciante de estar presente, de influenciar, de condicionar, de dizer estou aqui e quando não estava de manobrar nos bastidores para afirmar o seu poder que não tinha, mas fingia que tinha a partir de uma ideia de coabitação onde o verbo esticar foi levado ao limite no que toca ao poder presidencial. Marcelo esteve em todas e, provavelmente, vamos vê-lo, dentro de algum tempo, a comentar a realidade portuguesa. Falta é saber o formato, o momento e o local onde o fará. Calculo que as televisões, as rádios e até os jornais o tenham assediado para patrocinarem um espaço nobre às suas tiradas, regressando, assim, às suas notas. O que fica já, em registo cinematográfico, é que Marcelo é único e o seu filme presidenciável não é repetível, tem direitos de autor e poucas semelhanças com qualquer dos presidentes que o antecederam. Tirando a boa disposição que o aproximaram de Mário Soares, em tudo o resto, foi único, a ponto de condicionar a ação dos governos tivessem eles maioria absoluta ou não; usou e abusou dos órgãos de comunicação social para condicionar a ação política dos governantes e dos partidos políticos e se por vezes vestia a pele do “pai” preocupado com os problemas concretos dos portugueses, outras e não raras vezes, encarnava de forma absolutista o espaço mediatista, criando e interpretando “irritantes” como forma de alimentar o que sempre soube fazer bem: cozinhar a intriga, virar o jogo a seu favor e ultrapassar os problemas que jogavam contra ele, tivessem origem familiar ou política. É deste enredo, de onde saíram chamuscados muitos dos protagonistas da classe política, que Marcelo Rebelo de Sousa sai de cena, pelo menos de lugar, deixando Belém, a alguém que é um antípoda. Os portugueses vão passar por uma espécie de nostalgia presidenciável nos próximos tempos, até se habituarem ao novo inquilino, mais parecido com Jorge Sampaio. Será o oito e o oitenta de Belém. Quem lucra com o seu desaparecimento é quem governa. É uma dor de cabeça que desaparece, uma espécie de zurzir permanente que deixa de funcionar, um alívio que o atual primeiro-ministro vai sentir nos próximos tempos. Do lado de cá, os cidadãos estão na expectativa se, a partir de Braga, Marcelo Rebelo de Sousa, estará a preparar uma alternativa a Belém, seja como comentador, a dar algumas aulas, a escrever memórias, a proferir conferências. Tudo servirá, não tenho dúvidas, para construir narrativas sobre a sua perspetiva da atualidade. Será, igualmente, interessante, ver quem ganhará mais protagonismo: se Marcelo, ou o ex-primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, que, sempre que fala, põe o país em escuta. Os dois têm bons motivos para articularem uma espécie de jogo de tabuleiro “mata mata”. Veremos quem conquista mais preponderância, sabendo, à partida, que nenhum tem vocação para ficar calado.


© Diário do Minho