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Quem casa, quer casa

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12.03.2026

Nos últimos anos, o acesso à habitação tornou-se um dos maiores desafios para os jovens em Portugal. Aquilo que deveria ser um direito básico, está, cada vez mais, a transformar-se num privilégio acessível apenas a alguns. Esta realidade sente-se de forma evidente em cidades como Braga, onde muitos jovens enfrentam enormes dificuldades. De acordo com os mais recentes dados dos Censos, Braga apresenta uma estrutura demográfica marcadamente jovem, com forte presença de população em idade ativa e uma significativa percentagem de jovens adultos. Este dinamismo deve-se, em grande parte, à atratividade económica, social e académica do concelho.

Apesar dessa juventude e vitalidade, muitos jovens enfrentam sérias dificuldades para comprar ou arrendar casa. Entre os principais obstáculos destacam-se: a diminuta oferta de habitação acessível; o aumento acentuado do preço das casas e das rendas; a exigência de capitais próprios elevados para acesso a crédito; a instabilidade e precariedade laboral e a forte pressão imobiliária. Em Braga, nos últimos dez anos, os preços das casas subiram desmesuradamente. Importa ainda referir que no mercado imobiliário as casas com preços abaixo de 200 mil euros sofreram uma enorme queda, sendo que, no outro extremo, dispararam as habitações acima de meio milhão de euros. Assim, mesmo aqueles que têm emprego estável veem grande parte do seu rendimento ser absorvido pelos custos da habitação, o que dificulta a autonomia e a construção de um projeto de vida independente.

O aumento do custo da habitação empurra famílias para situações de precariedade, para outros municípios ou para a periferia do nosso concelho, criando uma cidade cada vez mais segmentada entre quem pode viver no centro e quem é forçado a afastar-se ou mesmo sair da cidade. Uma cidade fisicamente fragmentada dificilmente será socialmente coesa. Ademais, estes cenários tornam cada vez mais difícil dar o passo natural da emancipação, constituir família, impedindo, muitas vezes, a população jovem em permanecer próximo da sua rede familiar e de amigos, promovendo, in ultima ratio o seu desenraizamento.

O recente Plano Diretor Municipal (PDM), embora aparentemente orientado para o ordenamento sustentável do território, levanta preocupações quanto à limitação de construção em determinadas áreas. A reclassificação de terrenos e as restrições urbanísticas podem dificultar a fixação de jovens junto das suas famílias, sobretudo em freguesias periféricas onde tradicionalmente se construíam habitações unifamiliares e algumas famílias dispõem de terrenos que muito gostariam não só de eventualmente cultivar, como averiguar da possibilidade de ser local de edificação da casa dos seus filhos ou netos. Se, por um lado, se pretende preservar o território, por outro, importa refletir se as medidas adotadas não acabam por criar barreiras adicionais a quem deseja iniciar um projeto de vida no concelho.

Se estas dificuldades já configuram verdadeiros “mostrengos”, exigindo jovens audazes e resilientes capazes de “ultrapassar o Cabo”, a questão que se impõe é coletiva: que políticas públicas podem facilitar o acesso à habitação? Que incentivos municipais podem promover habitação a custos controlados? Como equilibrar ordenamento do território com coesão familiar e fixação de população jovem?

Perante este cenário, torna-se fundamental que existam políticas públicas capazes de garantir o acesso à habitação a preços justos. Investir em habitação pública, regular o mercado de arrendamento e criar incentivos para habitação acessível são medidas essenciais para assegurar que ter casa não seja um luxo, mas sim um direito.

A habitação não pode ser vista apenas como um investimento ou um negócio. É, antes de mais, uma condição essencial para uma vida digna. Por isso, garantir o acesso à habitação para os jovens não é apenas uma questão económica, mas também uma questão de justiça social.

Braga tem energia, talento e juventude. O desafio está em garantir que essa juventude possa permanecer, construir e prosperar no concelho — porque quem casa quer casa, mas quem é de Braga quer, sobretudo, poder ficar em Braga.


© Diário do Minho