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Revogar versus completar

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17.02.2026

Gosto de falar das questões do tempo presente, das que estão em voga, das que afectam a vida de forma geral a vida das pessoas. Gosto de opinar sobre a política que se faz, da que acontece e que se traduz em medidas que beneficiam o quotidiano das populações.

De assuntos internacionais não sei falar, nem é coisa que me prenda a atenção, ainda que já tenha dito uma ou outra vez algo sobre Gaza e a Ucrânia pelas injustiças com os grandes e às vezes os inimigos viscerais do mundo se entendem, prejudicando severamente populações indefesas e sobre as quais outros povos acabam por se acobardar ou fazer que fazem para parecer que se importam muito com tais injustiças. Não me querendo repetir no que já disse, não tenho mais que dizer hoje sobre isso.

Quanto a assuntos que possam interessar aos bracarenses, haverá algo a dizer, mas considero não ser ainda oportuno pronunciar-me pela relativa proximidade das eleições autárquicas. Bem, há as mudanças nas opções que antes se dizia que não seriam – ao que parece, só para se não concordar com grande parte da oposição – e do estado da rede viária que está uma lástima, em alguns pontos a confrontar os automobilistas a terem de fazer autênticos ralis a qualquer hora do dia e a suportar prejuízos diversos, mas vou dar tempo ao tempo que ainda se faz sentir para que as obras de que já se falaram passem da letra à prática e comecem.

Na verdade, sinto-me hoje numa encruzilhada, quase sem palavras que façam sentido, sejam pertinentes ou tenham interesse, até para a minha reflexão. Talvez seja falta de inspiração ou seja mesmo falta de atenção da minha parte. Não me sinto desta vez muito à-vontade para desenvolver o que quer que seja e já é tarde para apresentar o texto na redacção, ainda que seja vulgar que escreva entre a tarde e o início da noite de domingo e faça a revisão na manhã de segunda-feira. Desta vez, estou a tentar escrever de raiz estas linhas de crónica na manhã anterior à publicação das mesmas.

Em momentos como este, costumo recorrer ao que escutei ou li na liturgia dominical. E está ainda fresca a leitura do Evangelho de Mateus 5, 17-37. Houve dois verbos que me captaram a atenção logo no início da sua proclamação pelo sacerdote que presidiu à celebração da Eucaristia das 10:30 na Basílica dos Congregados: revogar e completar. Não foi este o escopo do orador, que se dedicou, nos minutos da sua interessante e profícua homilia, sobretudo, ao convite à conversão do cristão e à compreensão da sabedoria divina que projecta a nossa vida para a eternidade.

Vou cingir-me apenas e só ao primeiro versículo do texto de Mateus. Como é diferente a Lei de Deus da lei dos homens! E escrevo, de propósito, uma com letra maiúscula e a outra com letra minúscula. A primeira vigora durante séculos e séculos sem precisar de ser revogada ou alterada. Deus inspirou-a a quem a escreveu de forma a isso não ser necessário e a não se contradizer ao longo do tempo. Não teve objectivos interesseiros ou de organização, se assim se pode dizer, nem faria sentido que variasse o discurso em função do humor ou à medida dos acontecimentos. A Sua Lei ajusta-se a todos os tempos, aos que passaram e aos vindouros. Apenas precisou de ser completada na passagem do Antigo para o Novo Testamento.

A lei dos governos e das legislaturas, ao contrário, não pára de se fazer e desfazer ao ritmo de cada ciclo eleitoral. Não existe um critério consistente e responsável nas leis que se produzem, mas quase sempre um objectivo político. Ainda que os programas eleitorais coincidam em muitos aspectos, a lei é diferente se é o partido A ou o partido B a produzi-la. É a marca política que se pretende que fique e que a condiciona. No ciclo político seguinte, para mostrar serviço, o partido que governar, ao sabor do humor e da visão da realidade que diz ter, vai revogar muito do que o anterior legislou. Podia simplesmente ser completar, mas isso não seria suficientemente elucidativo de quem manda. Quantas vezes o país corre atrás do prejuízo por se não ter acautelado o que os que antecederam no governo fizeram bem!


© Diário do Minho